Carlos Lacerda e a Olimpíada

Vibrei com a vitória da Cidade Maravilhosa! Moro aqui desde os 4 anos de idade. Aprendi a amar este Rio de Janeiro incomparável e a sentir tudo o que a cidade representa em nossa História. Principalmente seu espírito indomável.

Sandra Cavalcanti, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2009 | 00h00

Minha geração participou de seus momentos mais difíceis. A absurda e inesperada destituição da capital do País. Sua insensata redução à condição de município. Os castigos que sempre sofreu pelas manifestações corajosas de amor à lei e à liberdade. Como reduto de oposição aos regimes de força, o Rio foi sempre prejudicado por medíocres ocupantes do poder federal. Nada disso, entretanto, conseguiu apagar sua bravura ou diminuir sua capacidade de trabalho.

O maior exemplo dessa garra foi dado ao País em 1960. Contra tudo e contra todos, Carlos Lacerda foi o primeiro governador eleito do Estado da Guanabara, criado após a transferência da capital da República para o planalto deserto de Goiás. Sua vitória foi um episódio inédito na nossa História política.

Quando Carlos Lacerda se apresentou como candidato, e venceu, essa vitória foi vista como a crônica de um fracasso anunciado. Jornalista consagrado, escritor, deputado federal respeitado, tribuno amedrontador, crítico audacioso das ideologias totalitárias, Carlos Lacerda não trazia em seu currículo nenhuma informação sobre experiência administrativa. No entanto, como jornalista, estudioso, poliglota, viajante observador, grande conhecedor de nossa História, ele sabia muito bem o que o esperava. Sabia que a cidade precisava de um estadista.

Encontrou o novo Estado-cidade em situação desesperadora. Sem água havia mais de 30 anos. Sem luz, sem energia, sem telefones, sem rede de esgotos, sem vagas nas escolas públicas, sem hospitais que pudessem atender à demanda, sem transporte coletivo e, principalmente, sem projetos para o seu desenvolvimento.

O João Havelange sabe disso, ele é desse tempo. O pai do governador Sérgio Cabral, também. É dessa época. Quem viveu aqueles tempos e ainda estiver lúcido e atuante conhece essa epopeia. Foi uma verdadeira Olimpíada! A data marcada era o dia 30 de dezembro de 1965, quando ele entregaria a cidade ao seu sucessor. Um desafio assustador.

Primeiro, era preciso resolver o problema da falta d"água. A cidade vivia esse drama fazia mais de 30 anos, quando ele assumiu. Acontece que ela não dispunha de um Rio Sena, um Tâmisa, um Tejo, um Potomac, um Tibre. Chamava-se Rio de Janeiro por equívoco. Não tinha um rio que pudesse abastecê-la. Esse era o desafio olímpico!

Todos os projetos falavam em canais. Mas onde localizá-los? Uma equipe de engenheiros brasileiros, liderada pelo saudoso Veiga Brito, respondeu a essa pergunta com uma proposta surpreendente: captar água no distante Rio Guandu, represá-la, tratá-la, cruzar com ela o território do Estado, atravessando o maciço da Serra da Tijuca. Uma estação elevatória faria a água alcançar as alturas da serra, jogando-a num túnel escavado nas pedras, com 46 km de comprimento e 6 m de diâmetro. Pois isso foi feito. Um projeto olímpico!

Em 2008, um dos mais acreditados centros de análise de projetos hidráulicos do mundo, com sede em Londres, considerou que "o maior e mais importante projeto de captação, tratamento e distribuição de água do século 20 foi o projeto do Guandu". Era a nossa medalha de ouro. A cidade do Rio de Janeiro e muitas vizinhas vivem ainda hoje da água que jorra dessa obra-prima.

Ao assumir o governo, Carlos Lacerda encarou um grande escândalo: o aterro da Praia do Flamengo. Obra que se arrastava desde 1943, para alegria dos empresários de caminhões, que apanhavam pedras e terra no Morro de Santo Antônio. Terminado o aterramento, a área ia ser objeto da mesma negociata imobiliária que ocorrera na Esplanada do Castelo. O governador escolheu um destino diferente: implantar ali o maior parque urbano das Américas. Para alegria dos cariocas, o parque é hoje uma das mais belas joias da cidade.

Carlos Lacerda encontrou a cidade do Rio sem nenhum planejamento de desenvolvimento urbano. Planejamento de verdade, de estadista, de longo prazo. Contratou, então, o melhor urbanista da época, famoso pelo que fizera em Londres, Los Angeles e outras grandes cidades pelo mundo. Constantino Doxiádis era o nome dele. Quem passa hoje pela Linha Vermelha, pela Linha Amarela, pela Linha Verde, pelo Túnel Rebouças, pelo Túnel Dois Irmãos e descortina a Barra, usa o trabalho do urbanista grego.

Como bom ambientalista, Carlos Lacerda preservou a reserva do Recreio dos Bandeirantes, tombou o Parque Lage e implantou a defesa do Maciço da Pedra Branca.

Na área da educação, ele, que como deputado federal acabara de ver vitoriosa a Lei de Diretrizes e Bases, exigida desde 1946, mostrou a que viera: em menos de um ano resolveu a questão da falta de vagas na rede pública de ensino. Dois terços da rede de esgotos da cidade foram construídos nesse período, no qual também a rede pública de hospitais foi recuperada. Alguns deles, construídos então, ainda garantem o bom atendimento atual.

Muitas favelas, que devastavam a mata atlântica, poluíam lagoas e rios ou ocupavam áreas de risco, foram reassentadas em condomínios populares. Na imensa área da antiga Favela do Esqueleto ergue-se hoje o câmpus da Uerj. Ali viviam mais de 5 mil famílias, que foram reassentadas nas casas da Vila Kennedy.

Sei que os Jogos Olímpicos vão ser um sucesso. Os eventos cariocas juntam multidões, mas são sempre pacíficos. Quem viver até 2016 verá uma fantástica Olimpíada! Idosos como o Havelange, eu mesma, os pais do Sérgio Cabral, do prefeito Eduardo Paes, nós confiamos. O Cabral e o Paes, bem mais moços, vão ter a alegria de ver o Rio mostrar por que é a Cidade Maravilhosa!

Sandra Cavalcanti, professora, jornalista, foi deputada federal constituinte, secretária de Serviços Sociais no governo Carlos Lacerda, fundou e presidiu o BNH no governo Castelo Branco

E-mail: sandra_c@ig.com.br

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