Associated Press
Associated Press

Carruagem em marcha ré?

Apesar da festa e dos holofotes, pretígio da realeza está em declínio na Inglaterra, diz professor

Ivan Marsiglia - O Estado de S.Paulo,

30 Abril 2011 | 16h00

O historiador britânico Peter Burke não tinha mais que 13 anos quando testemunhou o casamento da então princesa Elizabeth com o príncipe Philip, dia 20 de novembro de 1947. Viu televisão pela primeira vez aos 16 anos, e o programa foi a cerimônia de coroação de Elizabeth rainha, em 2 de junho de 1953. E já era um dos mais importantes especialistas do mundo em Idade Moderna europeia quando acompanhou as bodas do príncipe Charles e Diana naquele 29 de julho de 1981. Não é apenas por conhecimento acadêmico, portanto, mas por observação empírica que ele afirma: "Como historiador, o que me espanta é ver que o interesse pela realeza está diminuindo na Inglaterra".

Aos 73 anos, o professor emérito da Universidade de Cambridge e ex-docente das universidades de Essex, Sussex e Princeton afirma que, apesar do fascínio do público e da imprensa internacional pelas imagens do casamento do príncipe William com a plebeia Kate Middleton, na sexta-feira, o prestígio da monarquia na Inglaterra está em declínio. E cita como exemplo a enquete do jornal The Guardian, segundo a qual 46% dos britânicos dizem não estar interessados pelo real matrimônio.

 

Veja também:

linkRetratos dupla-face

linkMonarquia tropical

 

Na entrevista a seguir, o autor de clássicos como Uma História Social do Conhecimento: de Gutemberg a Diderot (Jorge Zahar, 2003) e Cultura Popular na Idade Média (Companhia de Bolso, 2010) - que morou no Brasil e é casado com historiadora brasileira Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke - discute os efeitos da atual crise econômica sobre as monarquias europeias, diz que o príncipe Charles é hoje uma figura digna de pena e sustenta que a corte de Buckingham deve - a exemplo das "monarquias de bicicleta" da Holanda, Dinamarca, Suécia e Noruega - descer do salto Luís XV e vestir as sandálias da humildade se quiser se perpetuar no longo prazo.

A pesquisa do Guardian em que 46% dos britânicos disseram não ter interesse pelo casamento do príncipe William com Kate Middleton o surpreendeu?

 

Li a pesquisa do Guardian e não fiquei surpreso com os resultados. Como historiador, o que me espanta é ver que o interesse pela realeza está diminuindo. Lembro-me do casamento de Elizabeth e Philip, quando eu tinha 12 ou 13 anos de idade, da coroação, que foi a primeira vez que vi televisão, e das bodas de Charles e Diana... Se nas ruas a atmosfera é semelhante, com o público vendo convidados chegarem à Abadia de Westminster, e globalmente o interesse até seja maior, dizem que brasileiros acordaram cedo para acompanhar a cerimônia, chama a atenção o fato de 46% dos britânicos se declararem desinteressados pelo casamento. Até The Economist, que não é propriamente uma revista radical, comentou que o melhor presente de casamento para o jovem casal seria se libertar da monarquia e viver uma vida comum... Por que isso? Acho que houve um declínio da deferência em relação à família real na Grã-Bretanha. Por exemplo, caricaturas da rainha, quase impensáveis 50 anos atrás, aparecem regularmente na mídia hoje.

A Europa ainda sofre os efeitos da crise financeira mundial, com desemprego crescente e cortes nos gastos públicos. A monarquia é uma instituição cara e a própria rainha passou a defender austeridade nas despesas reais. O contexto econômico explica esse declínio do prestígio da monarquia?

Sim, há uma crítica crescente com relação aos custos da família real para os contribuintes, a chamada civil list de despesas. Percepção agravada pelo fato de a rainha ser extremamente rica e o príncipe Charles, bastante abonado. Só há alguns anos a rainha se dignou a pagar imposto de renda, mas muita gente ficaria mais feliz se os privilégios de seus filhos, sobrinhos e sobrinhas fossem reduzidos. Por outro lado, há os que sustentam que a monarquia é uma espécie de produto invisível de exportação - e que eventos como o casamento real, a celebração do aniversário da rainha e a cerimônia de troca da guarda trazem milhares de turistas a Londres. E há os benefícios políticos da monarquia, uma instituição que paira sobre os partidos políticos e contribui para a continuidade e a estabilidade.

Neste momento, então, o fato de Kate Middleton ser plebeia é conveniente?

 

Sim. Acho que Kate era necessária, e pode mesmo ter salvado a monarquia de uma queda mais aguda de popularidade - o que ocorreu quando a rainha Elizabeth de início se recusou a pôr a bandeira real a meio mastro em homenagem a Diana -, embora eu suspeite que a rainha tenha dificuldades em aceitar a família de Kate, levando em conta que os parentes da noiva só foram conhecer a rainha poucos dias atrás.

Alguns dizem que o príncipe William ameaça eclipsar o pai, Charles, que sempre pareceu um personagem em busca de um papel - ou uma causa, um certo ambientalismo ingênuo. O sr. acha que William tem mais condições que o pai de conquistar a confiança e a afeição do povo britânico como monarca?

É difícil não sentir pena de Charles, que parece também ter pena de si próprio. Foi um desempregado a vida toda. Como Edward, filho de Victoria, que se tornaria Edward VII, ele já esperou por tempo demais sua vez no trono. Em determinado momento, Chales até parecia menos formal, mais moderno e alternativo que a mãe, mas agora é visto apenas como pomposo. Sem falar na juventude que William tem a seu favor. Ainda é cedo para dizer que tipo de monarca William pode vir a ser, mas pelo menos ele parece "simpático". Mas vale dizer que numa pesquisa recente, em que se perguntou às pessoas sobre o futuro da monarquia, a maioria afirmou esperar que ela ainda esteja vigente nos próximos dez anos, mas tem sérias dúvidas sobre sua permanência no longo prazo.

E o senhor, o que acha? A monarquia tem condições de se perpetuar na Europa?

Desde que os monarcas europeus não exerçam muito poder, as únicas concessões que terão que fazer são econômicas. Algumas dessas monarquias, como a holandesa, a dinamarquesa, a sueca e a norueguesa são simples, sem luxo, as "monarquias de bicicleta". Em minha opinião, essa seria a melhor opção para a Inglaterra no futuro.

E os monarcas absolutistas do mundo árabe, que temos visto cair em movimentos pró-democratização?

Fora da Europa, a situação evidentemente é outra. Príncipes árabes se comportam mais como nosso Henrique VIII ou Charles I, antes que sua cabeça fosse cortada em 1649. Há também uma tradição de revoltas no Oriente Médio: um sultão otomano foi deposto em 1648 e, mais recentemente, um xá iraniano foi mandado para o exílio. O que é significativo agora é o surgimento de um movimento democrático simultâneo em uma série de países submetidos a governantes absolutistas, sejam eles reis ou presidentes. Um movimento que se deve em boa medida à expansão do acesso à mídia - rádio, TV e internet - por esses povos. Estamos assistindo a um "maio de 1968" árabe.

A monarquia britânica sempre se identificou com o mundo acadêmico. No ano passado, houve pressões para o príncipe Philip renunciar ao cargo de reitor da Universidade de Cambridge, que ocupava desde 1952. São também sinais de mudança?

Não estou certo de que qualquer um dos membros da família real desde o príncipe Albert em 1850 tenham tido verdadeiro interesse no mundo acadêmico. Além de William, só me ocorrem dois: Charles estudou antropologia e arqueologia na Universidade de Cambridge e recebeu um diploma de segunda classe. Edward cursou história na Universidade de Cambridge, embora seus resultados de exames escolares tivessem sido abaixo do normal para a admissão, mas não teve bom desempenho nos exames finais. Sei disso porque fui um dos examinadores. Homens da realeza tendem a preferir Forças Armadas a universidades. Kate será o primeiro membro feminino da família com diploma universitário. De toda forma, espero que Cambridge escolha alguém academicamente adequado para reitor da próxima vez. Para quem observa de fora, a ligação entre a monarquia e as universidades pode parecer mais próxima do que de fato é. Claro que a monarquia inglesa, o Parlamento, Oxford e Cambridge são todas instituições medievais. E acadêmicos são condecorados cavaleiros, damas ou lordes. Quando alguém é laureado, é convidado ao Palácio de Buckingham. Mas não é a rainha que decide quem receberá tal honraria: essa é uma função do primeiro-ministro.

No altar da Abadia de Westminster, onde William e Kate se casaram, o primeiro túmulo que se vê é o de lorde Thomas Cochrane (1775-1860), conhecido no Brasil como Marquês de Maranhão. Cochrane foi oficial da Marinha britânica e é considerado fundador da Marinha do Brasil. Para Gilberto Freyre, o Brasil é mais anglófono do que imagina. Que relações o senhor vê entre as duas culturas?

Embora existam diferenças óbvias entre a cultura brasileira e a inglesa - entre extroversão e o introversão, por exemplo - acho que Gilberto estava certo ao apontar algumas semelhanças. Como a preocupação com a conciliação: a transição relativamente pacífica entre regimes políticos na Grã-Bretanha (pelo menos desde 1688), em contraste com o nosso vizinho francês, lembram as transições no Brasil, contrastantes com as revoluções, golpes e guerras civis da América Espanhola. Já as conexões militares entre o Brasil e a Grã-Bretanha, elas começam quando a Marinha britânica ajudou - ou forçou - a família real portuguesa a escapar do Exército de Napoleão, levando-os para o Rio de Janeiro. Após esse evento, comerciantes britânicos começaram a se estabelecer no Rio, Recife e outras localidades para vender alimentos ingleses (cerveja, queijo), roupas, talheres, jogos de chá, banheiras, sanitários, etc. Mais tarde, os ingleses construíram as estradas de ferro no Brasil. Sempre que passo em frente à Estação da Luz penso na Inglaterra: ela se parece com uma estação ferroviária britânica, e foi desenhada por um arquiteto britânico.

O Brasil assistiu fascinado ao casamento real nessa semana. Em 1992, um ano antes do referendo que estabeleceu a República presidencialista no País, líderes políticos alarmaram-se com pesquisas que mostravam 22% dos brasileiros simpáticos à monarquia. Quais são, na sua opinião, as vantagens e desvantagens dos dois regimes?

Ambos os sistemas políticos têm seus custos e benefícios. Diz-se com frequência que um regime republicano em que o presidente tenha tanto carisma quanto poder, como já aconteceu nos EUA e no Brasil, corre o risco de se transformar em uma ditadura. Enquanto um monarca (ou um presidente com pouco poder de fato, como na Irlanda ou na Índia) com carisma ao lado de um primeiro-ministro com poder é melhor para a democracia e a estabilidade. Imagine uma situação na qual um primeiro-ministro britânico, talvez inspirado em Hugo Chávez, decidisse permanecer no poder sem a realização das eleições gerais exigidas a cada cinco anos. Nesse caso, o monarca, como guardião da Constituição britânica, pode demitir o premiê e nomear um substituto, provavelmente com a aprovação da opinião pública. No dia a dia, é possível criticar líderes políticos sem qualquer risco de "lesa-majestade", porque eles não são monarcas. Ainda assim, acho que o estado de espírito nacional está mudando, haja visto os artigos no Guardian e na Economist do qual falamos no começo. A grande questão é saber o que substituiria a monarquia na Inglaterra no nível simbólico. Em todo caso, como Karl Marx se queixava quando morava em Londres, os britânicos são resistentes a mudanças. Na década de 60 ou 70 eu costumava pensar que poderíamos nos tornar republicanos e eleger o príncipe Charles - mais popular naqueles dias do que hoje - como o primeiro presidente. Isso teria sido um exemplo do tipo de compromisso ou continuidade na mudança que os ingleses amam...

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.