Casal diz ter visto violência em escola

Ex-funcionários da Trenzinho Feliz reforçam denúncias; 26 mães prestaram queixa

Camilla Haddad, O Estado de S. Paulo

08 Dezembro 2012 | 02h07

Mais dois ex-funcionários da Escola Berçário Trenzinho Feliz, na Vila Clementino, zona sul de São Paulo, serão ouvidos pela polícia na segunda-feira. O casal, um homem e uma mulher, trabalhou no local em anos anteriores e diz ter presenciado cenas de violência. Nos últimos dois dias, 26 mães prestaram queixa por agressões supostamente praticadas pela proprietária. O caso veio à tona após uma denúncia feita por um grupo de professoras que pediu demissão - uma delas filmou um dos episódios.

Diretora e dona da unidade de ensino, Conceição Tomaz Cruz, de 52 anos, foi indiciada na tarde de anteontem por maus-tratos. Segundo a polícia, Conceição foi flagrada no vídeo dando um tapa no rosto de um dos alunos, de 2 anos. Ela responde em liberdade.

A delegada Lisandrea Zonzini Salvariego Colabuono, titular da 2.ª Delegacia de Defesa da Mulher, diz que o depoimento do casal pode ser fundamental para o andamento do inquérito. "O intuito é provar que o comportamento dela era reiterado. Ela sentia prazer em agredir as crianças. Não fez uma só uma vez. Queremos provar a tortura", esclarece. Segundo Lisandrea, os ex-funcionários procuraram a delegacia depois que viram reportagens sobre o caso.

A Secretaria Municipal de Educação diz que a Diretoria Regional de Educação do Ipiranga determinou o descredenciamento da Trenzinho Feliz. Uma portaria será publicada nos próximos dias. Para concluir o fechamento da escola, a Diretoria Regional comunicará o Ministério Público, o Conselho Tutelar da região e a subprefeitura.

Uma professora de 35 anos, que trabalhou na escola recentemente, diz que presenciou cenas que a deixaram "desnorteada". "Crianças vomitavam de tanto comer." A professora, que não quer ser identificada, lembra que os maus-tratos eram constantes na hora das refeições. "Criança de 2 anos tem resistência a comer, é normal. Mas o estresse dela (Conceição) era em relação a isso. O choro também a deixava nervosa."

A professora observa que Conceição ficava desequilibrada no horário do almoço. "Ela descia da sala dela para alimentar as crianças. Coisas que as auxiliares que fazem. Era estranho."

Alma lavada. A economista Marli Oliveira mora na Chácara Klabin, bairro próximo à escola, que fica na Rua Jureia. "Estou de alma lavada. Como não consegui provar nada na época em que meu filho estudou lá, eu vim hoje (ontem) falar para a polícia que meu filho também foi agredido", desabafa.

Hoje, o filho de Marli tem 18 anos. Quando tinha 3 anos, segundo ela, o menino chorava muito ao sair da escola. "Um dia eu descobri com outros alunos que ele ficava de castigo na parede, com os braços para cima", lembra. Como solução, a economista preferiu contratar uma babá para a criança.

Segundo a delegada Lisandrea, outras questões preocupam as mães. "O lugar era sujo, as crianças eram picadas por insetos", diz. "E a escola existe há 30 anos e já atendeu mais de 3 mil crianças", completa. Pais contam que a mensalidade chegava a custar R$ 800. "Em reuniões tinha até goteira. Reclamei, mas nada foi feito", conta uma mãe, sem dizer o nome.

Há dois dias a reportagem tenta contato com os advogados de Conceição, sem sucesso.

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