Fabio Motta/AE
Fabio Motta/AE

Caso de estudante carioca expõe fragilidade de avaliação

Um examinador deu nota 800 para redação de Bianca; o outro, zero. Especialistas convidados dão nota entre 760 e 920

Carlos Lordelo, do Estadão.edu, e Paulo Saldaña, de O Estado de S. Paulo,

15 de janeiro de 2012 | 03h03

Questionamentos sobre a redação marcaram as últimas edições do Enem, mas neste ano foi a primeira vez que o MEC assumiu ter alterado notas de candidatos e dado vista a correções.

Assim que estudantes começaram a ter acesso ao espelho das avaliações, surgiram situações no mínimo curiosas. É o caso da estudante carioca Bianca Peixoto Lucema, de 19 anos.

O primeiro corretor atribuiu 800 pontos em uma escala que vai até 1 mil. O segundo avaliador decretou que ela havia "fugido ao tema" e deu zero. O terceiro corretor atribuiu 440, a nota final.

Apesar de Bianca ter entrado com recurso na Justiça, a nota não foi alterada. E a página de correção encaminhada pelo MEC à estudante suscitou outra dúvida. Num trecho, o texto afirma que a nota dela é 680, e não 440.

O MEC alegou que foi apenas erro de digitação, mas Bianca entrou com uma nova ação. A Justiça determinou então que a nota fosse corrigida para 680, o MEC recorreu, mas a juíza manteve a decisão sobre alteração - o que ainda não foi acatado pela pasta. Desolada, ela lamenta ter perdido a vaga em Medicina. "Consegui boas médias nas outras áreas, mas por uma injustiça vou ter de estudar mais."

A redação de Bianca foi encaminhada para quatro corretores independentes convidados pelo Estado para que avaliassem o texto. Todos utilizaram a matriz de competências adotada pelos corretores do Enem, assim como a mesma escala de notas (mais informações abaixo).

As notas dadas pelos convidados variaram entre 760 e 920 pontos. Na opinião do professor Benedito Antunes, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o texto merece boa nota. "A redação revela abordagem pertinente do tema, ainda que parcial, e bom domínio da língua padrão."

Antunes explica que a redação pode ter suscitado discussão "quanto à adequação ao tema proposto", uma vez que utiliza um título em princípio estranho ao tema. "Mas a redação obtém boa pontuação, sendo prejudicada apenas nas competências que avaliam diretamente a abordagem do tema, incluindo a organização dos argumentos."

A correção também foi feita, a pedido do Estado, por uma professora que corrige redações do Enem. Por contrato de sigilo, ela não pode se identificar. "Ela argumentou com bastante propriedade, aplicando várias áreas do conhecimento", explica E.M.S.

Critérios. A correção do Enem leva em conta cinco competências: (1) domínio da norma padrão da língua; (2) compreensão da proposta de redação e aplicação dos conceitos das várias áreas do conhecimento, dentro dos limites do texto argumentativo-dissertativo; (3) seleção, organização, interpretação e relação entre as informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa do ponto de vista; (4) conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a argumentação e (5) proposta de intervenção para o problema abordado.

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