Caso expõe Justiça italiana a críticas

Julgamento de americana acusada de matar colega de quarto britânica está repleto de falhas e imprecisões

John Hooper, THE GUARDIAN, PERÚGIA, ITÁLIA, O Estadao de S.Paulo

07 Dezembro 2009 | 00h00

De tudo o que foi escrito sobre o julgamento pelo assassinato de Meredith Kercher, o mais revelador aparece num despacho da agência de notícias italiana Ansa, na quarta-feira. "A decisão não será fácil", escreveu o repórter Matteo Guidelli, antes da fase final do julgamento de Amanda Knox e de seu namorado italiano, Raffaele Sollecito. "Sentenciar à prisão perpétua dois jovens, com 22 e 25 anos, significaria destruir suas vidas para sempre; deixá-los soltos significaria negar a investigação toda." Meredith, britânica, foi morta em novembro de 2007, no apartamento que dividia com a americana Amanda - aparentemente, durante uma festa que envolveu sexo, maconha e bebidas alcoólicas.

Contradizer policiais e promotores não pesaria muito para um júri britânico ou americano. Mas, na Itália, isso pesa.

Para os jornalistas "anglo-saxões", o caso era de manchas de sangue e DNA; declarações contraditórias e omissões suspeitas. Mas para os italianos havia uma outra dimensão. A Itália é um país onde a preservação da "cara" tem uma importância enorme. E, neste caso, havia muita gente com a reputação em jogo: os detetives que investigaram o homicídio, os procuradores de Perúgia que supervisionaram seu inquérito e os juízes que indiciaram Amanda e Sollecito e decidiram que as evidências eram suficientes para mantê-los presos por mais de dois anos. Como o caso atraiu uma publicidade mundial, as imagens da Perúgia e da Itália estavam em jogo, além da condição da Itália como um país que pode encontrar e punir assassinos.

O diário de centro-direita La Repubblica disse que a sentença para Amanda foi "surpreendente". O jornal notou que, no ano passado, o terceiro acusado, Rudy Guede, da Costa do Marfim, foi condenado a 30 anos. Ele havia afirmado ter atacado sexualmente Meredith, enquanto Sollecito a espetava com uma faca até Amanda dar o golpe final fatal com outra. Mas Sollecito recebeu uma pena de 25 anos e Amanda, de 26.

Os acusados na Itália têm o direito a duas apelações. Uma visão era a de que o julgamento de sexta-feira poderia ser revisto na primeira apelação e derrubado completamente na segunda. Isso permitiria que todos os envolvidos livrassem a cara.

A derrubada do veredicto e da sentença será amplamente atribuído, na Itália, não a a alguma falha na investigação ou no julgamento, mas à pressão estrangeira, a qual já estava aumentando, no sábado, no outro lado do Atlântico. Ontem, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, teve de esclarecer a jornalistas que não havia feito ao governo italiano nenhum pedido especial sobre o caso da sentenciada americana.

Em teoria, investigações da polícia são secretas até o momento em que os promotores pedem a um juiz o indiciamento de alguns ou todos os suspeitos. Na prática, tudo de importância num caso rumoroso como esse acaba na mídia.

Os seis jurados enfrentaram a tarefa quase impossível de desembaraçar o que acreditavam ter entendido do caso - quando o julgamento começou - do que ficaram sabendo posteriormente no tribunal.

O juiz do caso, Giancarlo Massei, fez uma interpretação ampla do que constituía evidência. Testemunhas deram avaliações subjetivas das atitudes e emoções de pessoas. Isso foi particularmente importante para Amanda Knox, porque um elemento chave no caso da promotoria foi que sua aparente falta de emoção após a descoberta do cadáver de sua colega de quarto era um indício de seu ódio a Meredith. Mas pouquíssimas evidências sobre esse ódio foram produzidas.

A motivação do assassinato nunca foi esclarecida. Na audiência prejulgamento, Giuliano Mignini, o representante do Estado, insinuou a possibilidade de um ritual satânico, mas essa ideia acabou descartada.

JOGO SEXUAL

Outros fatores colocados na mistura pela promotoria incluíram a ausência de dinheiro pertencente a Meredith no apartamento. Segundo Mignini, Kercher foi vítima de "uma escalada incontrolável, irreversível, de violência e jogo sexual", envolvendo vítima e acusados.

"É possível que tenha havido uma discussão entre Meredith e Amanda sobre o dinheiro que desaparecera. Ou talvez a estudante britânica tenha se incomodado com a presença de Guede", diz o promotor.

"Possível." "Talvez." Essas raramente são bases sólidas sobre as quais basear sentenças de prisão de 25 anos e 26 anos. Elas seriam razoavelmente suficientes, porém, se as evidências forenses tivessem sido conclusivas. Mas não foram.

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