CATIVOS SÃO CATEGORIA EM EXTINÇÃO

Cansado e frágil, aos 88 anos, Appuhamy Millangoda aceita prontamente o pedido do Estado de posar ao lado do seu "animal de estimação": um elefante de 50 anos chamado Jayanthi, com mais de 3 metros de altura, pelo menos 4 toneladas de peso e duas longas presas de marfim. Quase me arrependo ao ver os dois lado a lado, temendo que o animal faça algum movimento brusco. Mas Millangoda não mostra um pingo de receio. Ele é macaco velho no trato com elefantes, tendo convivido com esses gigantes durante toda a vida.

O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2011 | 03h06

Jayanthi é apenas um dos quatro elefantes da família. Há também uma fêmea e outros dois machos, todos de meia idade, na faixa dos 40 a 50 anos. Raja, o favorito da família, morrera de velhice algumas semanas antes, aos 74 anos. Todos dizem que era um animal impressionante, com quase 4 metros, 5 toneladas e presas de marfim tão grandes que quase tocavam o chão. Pelas fotos que o Sr. Millangoda faz questão de mostrar, parece ser tudo verdade.

"Nunca haverá outro elefante como o Raja. Nem no Sri Lanka nem no resto da Ásia", proclama ele, orgulhoso.

Ter um elefante no Sri Lanka é como ter uma Ferrari na Itália - símbolo de status e de orgulho nacional. Em parte por simbolismo histórico de nobreza, enraizado na cultura e na religião dos cingaleses desde seus primeiros reis. Em parte pelo custo de manter um elefante, altíssimo para os padrões do Sri Lanka, na casa dos US$ 1 mil por mês. Se você tem um gigante desses na garagem, portanto, isso diz muito sobre o tamanho da sua conta bancária.

Essa adoração social, cultural e religiosa, porém, pode estar com os dias contados. A população de elefantes cativos do país está ameaçada de extinção, mais até que a população selvagem.

Capturar elefantes selvagens, como fazia Millangoda na sua juventude, é proibido desde 1977. O número de elefantes cativos, ou "domesticados", no país caiu de aproximadamente 400, na década de 1990, para pouco mais de 100, no ano passado. E mais da metade desses 100 já tem mais de 50 anos. "Vamos ficar sem elefantes logo logo", alerta Sunel Rambukpotha, secretário do chamado "Templo do Dente", na cidade sagrada de Kandy, onde está guardado um dente de Buda - a relíquia religiosa mais importante do país.

Todos os anos, em agosto, o dente é carregado pelas ruas numa procissão envolvendo dezenas de elefantes, chamada perahera. É uma tradição que mistura crenças culturais e religiosas, segundo Rambukpotha. Diz a lenda que a mãe de Buda, na noite antes de dar à luz, sonhou com um elefante entrando em seu ventre, na forma de uma névoa.

O animal selecionado para carregar o relicário nas procissões, assim como no sonho, tem de ser um tusker - um elefante com presas, como se chama por aqui. O que cria uma dificuldade, já que, por alguma razão incógnita, menos de 10% dos elefantes machos do Sri Lanka têm presas, comparado a mais de 90% na Índia e outras regiões da Ásia. Além disso, tem de ser um animal grande, especialmente belo, com boa postura e sem nenhuma imperfeição física.

São poucos os elefantes no Sri Lanka que preenchem esse perfil. O Raja de Millangoda era um deles. Agora que morreu, restam apenas quatro, também em idade avançada - o mais novo tem 36 e o mais velho, 66. "Não sabemos como resolver isso", diz Rambukpotha.

Soluções. Para que o país não fique sem elefantes, há duas soluções: ou se capturam novos filhotes da natureza ou eles têm de ser reproduzidos em cativeiro. A melhor opção seria a segunda. O problema é que muitos dos elefantes cativos do Sri Lanka passaram da idade fértil e não há uma cultura de se reproduzir elefantes em cativeiro no país. Proprietários particulares nunca se interessaram por isso, porque a gestação de um elefante dura 22 meses e o animal não pode trabalhar durante esse período.

"Não é economicamente viável manter um elefante se você não pode ganhar dinheiro com ele", raciocina Deepani Jayantha, representante da Born Free Foundation no Sri Lanka. Além do tempo de gestação da mãe, o bebê exige cuidados especiais e não pode trabalhar pelos primeiros dez anos.

O status que um elefante particular confere é equivalente ao de uma Ferrari, mas os serviços prestados por ele equivalem aos de tratores, empilhadeiras e caminhões. Além de conduzir reis em campos de batalha, elefantes foram historicamente usados como animais de carga na agricultura, na indústria madeireira, de construção e outras atividades "peso pesado". Pergunte a qualquer cingalês e ele te dirá que o Sri Lanka foi construído no lombo de um elefante.

Hoje, há poucas "oportunidades de emprego" para elefantes fora da indústria de turismo, substituídos por guindastes e tratores de verdade. Mas a demanda por status continua, assim como as tradições religiosas. Só a oferta de elefantes particulares está em queda.

A única instituição com experiência em reprodução de elefantes no país é o orfanato de Pinnawela, do governo federal. Inaugurado em 1975, com cinco órfãos, o orfanato hoje cuida de 90 elefantes, dos 69 quais nasceram ali. Há anos a instituição não recebe mais animais selvagens, pois está com lotação esgotada. Ainda assim, toda vez que se propõe a doar algum de seus elefantes para templos ou zoológicos, uma grande polêmica tem início.

O respeitado conservacionista Jayantha Jayewardene, gerente do Fundo para Conservação de Elefantes e da Biodiversidade, sugere que alguns animais jovens sejam doados para proprietários selecionados, que tenha capacidade técnica e financeira comprovada de cuidar dos elefantes. Seria uma maneira de aliviar a superlotação do orfanato e manter vivas as tradições do país.

"Ter elefantes domesticados é bom para a conservação, pois ajuda as pessoas a admirar e entender melhor esses animais", argumenta Jayewardene. O orfanato de Pinnawela recebe cerca de mil visitantes por dia, tanto do exterior quanto do Sri Lanka. Para muitos deles, é uma oportunidade única de interagir com esses animais assustadoramente enormes e inteligentes.

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