Cauby canta o rei, mas CD é melhor

Estreia do show do veterano crooner, no Sesc Vila Mariana, mostrou deficiências

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

12 Dezembro 2009 | 00h00

Primeiro, a sinceridade. Cauby lê as letras das músicas enquanto as canta, portanto quase não as interpreta. Mesmo lendo, Cauby às vezes erra a letra. Ele erra o tom de vez em quando, e por ter uma voz muito potente, temos a impressão às vezes de que ele poderia ter dispensado o microfone - seus scats ardem nos ouvidos com a potência do som. Muitas vezes, ele também se esquece da entrada, e deixa os músicos meio órfãos.

Agora, os atenuantes. Era a estreia de um show, portanto tudo pode melhorar. Sobre ler as letras, Roberto Carlos também as lê num teleprompter, e foi ele mesmo quem as compôs. Cauby pode ir gradativamente adquirindo intimidade com as canções de Roberto Carlos, das quais ele parece gostar como qualquer um de nós, mas ainda não as decifrou suficientemente.

Paletó prateado, solitária rosa vermelha num vaso ao lado do microfone, Cauby estava solto, exultante. No telão, o ensaio fotográfico para a capa do seu disco, do fotógrafo Marco Máximo. Sua plateia, quase tão veterana quanto ele, perdoaria qualquer dos seus deslizes - afinal, está habituada a vê-lo na barulhenta esquina da Ipiranga com a São João, e ali ele estava num belo teatro, o aprazível auditório do Sesc Vila Mariana.

Cauby falou da amizade com Roberto e com Erasmo, de uma época em que eram tão ligados que os dois até toparam participar de um filme, Minha Sogra É da Polícia, em 1958. Tirou um sarro do colega Agnaldo Timóteo, que estava no gargarejo, "dedurando" que Timóteo resolveu agora gravar Conceição, seu maior clássico. A plateia ria, divertida.

O cantor até sugeriu a Roberto Carlos uma regravação de Olha num tom mais grave, com acompanhamento somente do piano, como ele faria a seguir. E brincou com o pianista Hanilton Messias, lembrando que, após a primeira sessão juntos, Messias levantou do piano depois da interpretação e o beijou, o "safadinho".

Cauby Peixoto é o único remanescente de uma era de ouro da canção brasileira, e sua voz impressiona sempre que a ouvimos. Impressiona ainda mais ao vivo, é como se ele fosse um animal em extinção. Quando encaixa esse vozeirão, como fez em pelo menos dois momentos do show (As Flores do Jardim da Nossa Casa e Os Seus Botões), faz a gente sorrir por dentro de satisfação. Quando erra, a primeira menção é perdoar, porque não existe mais ninguém como ele.

Quando cantou Música Suave, Cauby mostrou a potencialidade do show. Cantando um pouco mais longe do microfone, num tom mais baixo, com um timing melhor do acompanhamento, o cantor embalou a noite na Vila Mariana, fazendo a plateia aplaudir ainda mais entusiasticamente.

Com uma banda muito competente, engrossada por um sax e um violoncelo, Cauby entretanto não conseguiu no palco um efeito tão sedutor quando o que conseguiu no disco (que, segundo o produtor, ele gravou em apenas duas sessões). O tango Desabafo não funcionou tão bem da primeira vez que foi interpretado, mas quando ele voltou com a mesma canção, no bis, já estava mais fluido, palatável. "Dois passinhos para cá, dois passinhos para lá", brincou o fantástico Cauby, antes de a cortina se fechar irremediavelmente.

Por enquanto, o disco Cauby Interpreta Roberto é muito superior ao show. Havia 16 anos que Roberto Carlos não autorizava um artista a gravar um disco inteiro com seus hits (a última que permitiu foi Maria Bethânia, com As Canções Que Você Fez para Mim, de 1993). O álbum, com produção precisa, explora o melhor de dois mundos: a potência de Cauby e o romantismo de Roberto e Erasmo Carlos. Com ingressos esgotados, o show será reapresentado no dia 18, no mesmo Sesc. Logo depois, será a vez de Fafá de Belém mostrar suas releituras de Chico Buarque.

Serviço

Cauby Peixoto. Sesc Vila Mariana. Teatro (608 lug.). Rua Pelotas, 141, tel. 5080-3000. 6.ª, 21 h. R$ 40. Até 18/12

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