Celular na prisão custa até R$ 25 mil

Para não pagar propina a policiais, facção comprou detector de metais e estudou como entrar com telefones nas penitenciárias

Marcelo Godoy, de O Estado de S. Paulo,

13 Outubro 2013 | 07h48

O crime organizado criou um sistema de comunicação alternativo ao telefone celular para manter os negócios em funcionamento sem a interferência da polícia e do Ministério Público Estadual (MPE). É o chamado "bate-bola" - envio de mensagens de dentro do presídio para as ruas. O sistema é dominado por integrantes da cúpula da facção que exercem a função de "sintonia da rua" - ou seja, mantém a coesão e a ordem segundo as normas da facção entre presos ou bandidos livres.

 

De acordo com as investigações do MPE, os criminosos da cúpula mandariam "pipas" para as ruas, como são chamados os bilhetes por meio de mulheres, as pontes. "Essas mulheres levam semanalmente os bilhetes ocultos nos órgãos genitais para dentro dos presídios e após a "visita" trazem a resposta para os comandados na rua", afirmaram os 23 promotores de todos os Grupos de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaecos) no Estado de São Paulo.

 

Para manter o fornecimento de celulares nas cadeias, a facção comprou um "portal", como os detentos chamam os detectores de metal iguais aos usados por bancos. O objetivo era fazer testes para encontrar uma forma de passar telefone pelo detector sem o aparelho ser percebido. A operação, aparentemente custosa, tinha como objetivo diminuir os gastos da facção, pois agentes corruptos estavam pedindo até R$ 25 mil para deixar entrar um único telefone na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau, onde está presa a maioria da cúpula do PCC.

 

Se há a necessidade de contato mais rápido, os bandidos mobilizam advogados que servem de pombo-correio para o crime.

 

Quando precisou reagir ao que considerava "ações covardes da PM" que estaria executando bandidos, a direção do PCC decidiu usar o celular para passar uma ordem a todos os seus integrantes em liberdade. Era um "salve geral" em 2012.

 

A investigação detectou a ordem para matar PMs em vingança - ao todo, 106 foram assassinados. Às 23h40 de 13 de agosto do anos passado, o preso Jonathan da Silva Santana, um dos acusados de ser responsável pela Sintonia do Interior repassou a ordem para um de seus subordinados. Por ela, para cada criminoso assassinado por PMs, dois policiais deviam morrer e, para cada bandido preso por meio de provas forjadas, um PM devia ser morto.

 

Balanço. Com as investigações, os promotores esclareceram dezenas de crimes a partir das ordens da cúpula do PCC. Ao todo, nos três anos e meio de investigações 82 armas (47 fuzis), 64 veículos, R$ 1 milhão e 4,7 toneladas de drogas foram apreendidos. Foram presas 144 pessoas. "Tudo isso no período compreendido entre o mês de junho de 2010 até o ano de 2013, demonstrando assim, a estabilidade da organização até a presente data." / MARCELO GODOY

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