Celular não funciona em 175 cidades de São Paulo

O celular do comerciante Jonas Dias Batista só começa a funcionar uma hora depois que ele deixa a pequena cidade de Ribeira e pega a estrada em direção à capital paulista. Como ele viaja, no máximo, uma vez por semana, o aparelho fica desligado a maior parte do tempo. A cidade, da qual Batista é prefeito pelo PSDB, tem 3.600 habitantes e fica no extremo sudoeste do Estado, a 361 quilômetros de São Paulo. É um dos 175 municípios paulistas excluídos da telefonia móvel. "Nesse aspecto, nós ainda não viramos o século", diz o prefeito.É o que acha também o funcionário público Paulo César Hayascki, morador de Riolândia, extremo noroeste. "Aqui, só pega em lugar muito alto, ainda assim o sinal cai muito." Riolândia, com 8.561 moradores, é uma cidade turística às margens do Rio Grande e luta pela instalação de uma torre. "Ganhamos uma penitenciária, mas continuamos sem celular", diz Hayascki, chefe de expediente da prefeitura. Ele conta que muitos turistas hospedam-se em Cardoso, cidade próxima, onde o sinal chega bem.O prefeito Jamil Adib (PTB), de Iporanga, no Vale do Ribeira, a 360 quilômetros da capital, fica exaltado quando o assunto é telefonia. "Aqui, nem o telefone fixo funciona, a linha cai de três em três minutos." A cidade, pródiga em grutas e cavernas, tem 4.500 habitantes, mas recebe outro tanto nos fins de semana. Os turistas fazem fila no posto telefônico. "Eles se desesperam, não conseguem falar com os parentes." Adib exibe ofícios que mandou à Telesp Celular e a resposta assinada pelo chefe de gabinete da presidência da empresa, Carlos Eduardo Vassinon, informando que a cidade não está na programação para se integrar ao sistema. "Isso é o fim do mundo!", diz o prefeito.Seu colega de Ouro Verde, Odemar Carvalho do Val (PSDB), também não se conforma com a exclusão. Ele mandou ofícios ao presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Renato Navarro Guerreiro, e ao presidente Fernando Henrique Cardoso. Ouro Verde tem 9.785 habitantes e fica perto da divisa com o Mato Grosso do Sul. Segundo Carvalho, quando a Telesp Celular era estatal, anunciou um programa de investimentos para as cidades com menos de 10 mil habitantes. "Depois que privatizou, a empresa esqueceu esse compromisso." Cerca de 140 moradores, incluindo o prefeito, possuem celulares, que só usam quando viajam. Outras cidades da região, como Monte Castelo e Paulicéia também não recebem o sinal. A funcionária pública Maria Conceição Portari Gonçalves mudou-se de Junqueirópolis para Santa Mercedes e descobriu que ali o celular não funcionava. "Tive de desligar o aparelho." Nas emergências, faz o que aprendeu com os moradores locais. "Vou até o Conjunto Popular, um bairro alto e, com sorte, consigo ligar." Em Barão de Antonina, de 2.900 habitantes, no sudoeste, os moradores também "migram" para telefonar porque, segundo o lançador municipal Sérgio Machado, "de vez em quando, o sinal chega na parte alta".ExpectativaOs 3.271 moradores de Itaoca, no Alto Ribeira, ficaram alvoroçados quando começou a instalação de uma torre até descobrirem que era de telefonia fixa. "Nem parece que estamos no Estado de São Paulo", diz o prefeito Antonio Carlos Tranin (PSDB).Na mesma região, o vice-prefeito de Apiaí, Nilton Passoca de Toledo e Silva (PPB), acusa a Telesp Celular de lesar o consumidor. A cidade tem 28 mil habitantes e mais de mil celulares. Ele diz que o sinal é tão ruim que, para falar dois minutos, é preciso ligar pelo menos cinco vezes. "Como cada ligação é cobrada, o consumidor paga sem conseguir falar."Em Florínea, no Médio Paranapanema, os moradores também saem da cidade para telefonar. Para o prefeito, Severino do Vaz (PMDB), isso prejudica o turismo na cidade, que tem dois balneários.Bofete, de 5.400 habitantes, fica a menos de 200 quilômetros de São Paulo, mas não recebe sinal. O biólogo Carlos Nascimento sobe o morro que deu nome à cidade para usar o celular. "É uma caminhada longa, mas não tem outro jeito." Anhembi, cidade vizinha, também está fora da área de cobertura.A Telesp Celular informou que já atende a 470 municípios paulistas. Destes, 11 passaram a receber sinal nos últimos 15 dias. Dos demais, a maioria deve ser atendida ainda este ano. O critério é o populacional, embora municípios pequenos próximos a grandes centros acabem "furando a fila". A empresa diz que cumpre rigorosamente o contrato da privatização.Segundo o prefeito de Ouro Verde, o contrato não estabeleceu prazo para o atendimento às cidades com menos de 10 mil habitantes. A Anatel informou, por meio da Assessoria de Imprensa, que o atendimento à demanda total do Estado obedece a um cronograma fixado no contrato, que prevê a cobertura de toda a área de concessão até 2002. Segundo a Anatel, como operadora da Banda A, a Telesp Celular pode antecipar os prazos, mas isso deve ser negociado pelos prefeitos diretamente com a empresa.

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