Cem anos depois, Osasco revive o primeiro voo da América do Sul

Exposição de fotos, livros e homenagens relembram façanha de Dimitri Sensaud de Lavaud, pioneiro da aviação

Edison Veiga, O Estadao de S.Paulo

07 Janeiro 2010 | 00h00

Às 5h50 do dia 7 de janeiro de 1910, um barulho de motor se ouvia nas proximidades do chalé Bricola, em Osasco - então vila do município de São Paulo. Alguns instantes depois, aconteceria o primeiro voo de um avião na América do Sul, que percorreu 103 metros de distância - a uma altura que variava de 2 a 4 metros - em 6 segundos. A bordo da máquina, batizada de São Paulo, o aviador e inventor Dimitri Sensaud de Lavaud (1882-1947). No dia seguinte, a história foi contada pelo Estado, sem economia de adjetivos, e a foto do aviador ficou exposta na vitrine da sede do jornal.

Um século se passou e Osasco prepara uma série de comemorações para relembrar o episódio. Às 16h de hoje, no museu municipal que fica no próprio chalé Bricola (Avenida dos Autonomistas, 4.001, Jardim Alvorada; tel.: 3654-3108) e leva o nome do aviador, será aberta uma exposição com 24 fotos que ilustram a carreira de Lavaud. A mostra vai até 26 de fevereiro, com entrada grátis.

A escritora osasquense Susana Alexandria finaliza, em parceria com o jornalista Salvador Nogueira, o livro 1910: o Primeiro Voo do Brasil (título ainda provisório), a ser lançado pela editora Aleph. A obra deve estar à venda a partir de abril. "Durante minha infância, morava ao lado do chalé Bricola. Sempre tive uma ligação emocional com o lugar, um fascínio pela casa e sua história", conta Susana. "Desde 2006, estamos pesquisando para escrever o livro."

Os planos da escritora não param por aí. Com o propósito de, segundo ela, "divulgar essa história para além de Osasco", ela organiza, ainda para este ano, uma exposição itinerante e um documentário em vídeo relatando a façanha.

1910: o Primeiro Voo do Brasil não será o único livro a narrar o feito de Lavaud. Recentemente, o pesquisador francês Alain Cerf lançou, pela editora Editions du Palmier, a biografia Dimitri Sensaud de Lavaud, un ingénieur extraordinaire. "Por enquanto, o livro está disponível apenas em francês. Mas poderia, espero eu, ser traduzido para o português", diz Cerf, que descobriu por acaso a história de Lavaud e, fascinado, pesquisou ao longo de cinco anos para produzir o livro, tendo vindo diversas vezes para Osasco.

A Câmara Municipal de Osasco também deve homenagear o ilustre inventor, em sessão solene marcada para o dia 8 de abril. "É um fato para colocar nossa cidade no cenário internacional", vislumbra o vereador Sebastião Bognar (PSDB), que promete propor, na primeira sessão ordinária do ano, em fevereiro, que os poderes do município adotem, em seus documentos, um timbre com os dizeres: Ano do Centenário do Primeiro Voo na América do Sul.

Bognar sugere que a efeméride seja lembrada por outros órgãos como os Correios - que poderiam criar um selo comemorativo - e a Telefônica - que poderia criar cartão alusivo ao tema. Ele também pretende convidar a Esquadrilha da Fumaça, da Força Aérea Brasileira (FAB), para se apresentar na cidade.

BIOGRAFIA

Lavaud nasceu na Espanha, em 1882, filho do casamento de um francês com uma russa. Antes de se mudar para o Brasil, viveu na Suíça, Turquia e Grécia. Em Osasco desde 1898, a família Lavaud se instalou no chalé Bricola, construído menos de uma década antes pelo banqueiro Giovanni Bricola, no alto de um morro em uma área então distante do centro urbano. Seu pai comprou uma olaria e, em seguida, tornou-se sócio de indústrias de cerâmica da região.

Ainda adolescente, Lavaud já se dedicava a ler livros técnicos, construir barcos a vela e a jogar xadrez. Aos 26 anos, iniciou os projetos e cálculos para a realização de seu sonho: projetar e construir um avião. O aeroplano São Paulo, cujo esqueleto media 10,2 metros de comprimento por 10 metros de largura, ficou pronto em fins de 1909, e todas as suas peças foram feitas no Brasil.

"Ele era nosso Thomas Edison, um homem fantástico", compara o engenheiro civil Pierre Arthur Camps, citando o célebre inventor norte-americano. Camps, cujo avô era irmão da sogra de Lavaud, sempre foi um admirador da história do aviador. Em 2007, construiu uma réplica do São Paulo, doada ao Museu Asas de Um Sonho, mantido pela companhia aérea TAM na cidade de São Carlos, interior do Estado. "Levei um ano para construir o avião, com base em desenhos da época", recorda-se. "Precisei reprojetá-lo."

A carreira de Lavaud não se encerrou com o histórico voo. Acredita-se que ele tenha registrado cerca de 1,2 mil patentes diferentes, em vários países. Entre seus inventos, estão peças até hoje utilizadas pela indústria automobilística e aeronáutica, como tipos de chassis, freios, câmbios e hélices.

Em 1916, trocou o Brasil pelo Canadá. Na década de 20, mudou-se para a França - onde se estabeleceu até a sua morte, em 1947. Durante a Segunda Guerra Mundial, chegou a ser preso, a mando dos alemães, para que contribuísse com conhecimento tecnológico. A embaixada brasileira na França atuou por sua libertação.

"Infelizmente, não cheguei a conviver com ele. Mas minha família sempre lembrava de sua história com orgulho, afinal foi um grande inventor", afirma a única de suas netas ainda viva, Martine Ryser de Souza e Silva, de 63 anos.

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