Cenário multicor

Marcos da cidade, edifícios de Artacho Jurado mantêm viva a exuberância dos anos 50

Marina Pauliquevis / REPORTAGEM e Zeca Wittner / FOTOS,

18 de setembro de 2011 | 02h00

Parede azul, colunas cor-de-rosa, tapete vermelho para receber os visitantes e um painel curvo de elementos vazados. Tudo isso combinado seria um exagero em qualquer hall de edifício residencial. Mas não no Bretagne, uma das principais obras de João Artacho Jurado, empreiteiro que, mesmo sem ter formação de arquiteto, foi responsável por alguns dos mais reconhecidos marcos arquitetônicos de São Paulo.

 

 

Sem medo do exagero, ele ornamentou seus prédios, distribuídos por Higienópolis e pelo centro de São Paulo e também pela orla de Santos, com cores e formas incomuns, em fachadas elaboradas. Na época, entre os anos 40 e 60, predominava a sobriedade dos edifícios modernistas. E, não por acaso, o trabalho desse "intruso" foi alvo de críticas pesadas de arquitetos paulistanos, como conta o arquiteto e professor da Anhembi Morumbi Ruy Eduardo Debs Franco no livro Artacho Jurado - Arquitetura Proibida (ed. Senac, 336 págs.; R$ 98, na Livraria Cultura).

 

 

Mas a estética kitsch de Artacho, filho de imigrantes espanhóis, não assustou os possíveis compradores de seus apartamentos. Pelo contrário, os empreendimentos eram sucessos de venda. "Ele tinha um marketing poderoso para a época. E isso incomodou o mercado", diz Debs. "De qualquer modo, arquitetura é arte e arte se discute."

 

Condomínio-clube. Na tentativa de amenizar os desconfortos da mudança de uma casa para um apartamento, ele também incrementou os projetos com uma área de lazer inédita para o período, iniciando o conceito de condomínio-clube. O Bretagne, por exemplo, entregue em 1958, tem piscina, salão de festas, sala com piano, bar e jardim suspenso, no topo do prédio. A ideia, como dizia um anúncio publicitário daquele ano, era destacar a "convivência social" e a "nobreza de ambiente". "Artacho colocou algo a mais nos prédios e as pessoas gostavam de mostrar que moravam neles", diz Debs. "Imagine quantas festas não foram feitas nos salões do Bretagne, que, na época, era aberto para a rua como uma praça."

 

 

Cinco décadas depois, os moradores das construções de Artacho Jurado continuam orgulhosos de sua morada, como se percebe pelo ótimo estado de conservação dos lugares visitados pelo Casa: os edifícios Bretagne, Cinderela e Planalto, todos com elementos originais preservados.

 

O publicitário Wagner Tamanaha, que morou seis anos no Edifício Piauí e desde 2008 está no Parque das Hortênsias, ambos em Higienópolis, não perde a oportunidade de conhecer outros prédios com a assinatura de Artacho, não raramente acompanhado de outros aficionados por sua arquitetura. "Acho que, para quem não viveu na época em que esses prédios foram construídos, eles materializam o que poderia ter sido a alegria, a ingenuidade e os sonhos da cidade e do Brasil naquele período", diz.

 

 

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