Cenas macabras revelam dimensão de novo massacre na Síria

Cenas explícitas de tristeza e morte numa aldeia da Síria prestaram nesta sexta-feira um testemunho sobre um massacre que adversários do presidente Bashar al-Assad disseram ter sido cometido por soldados governistas e milícias aliadas e que despertou indignação no resto do mundo.

KHALED YACOUB OWEIS E ERIKA SOLOMON, Reuters

13 de julho de 2012 | 19h53

A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, disse haver "evidências incontestáveis de que o regime assassinou deliberadamente civis inocentes". Ela exigiu que os inspetores da ONU tenham acesso à aldeia de Tremseh, onde foram barrados por militares na véspera, tornando-se espectadores de várias horas de bombardeios e tiros.

Mas a reação da comunidade internacional não passou da retórica por causa da divisão das grandes potências sobre a Síria e por não ter ficado clara a ordem precisa dos fatos de quinta-feira. Ativistas estimam o número de mortos entre mais 100 e mais de 200.

"Condeno nos mais fortes termos possíveis o uso indiscriminado da artilharia pesada e o bombardeio de áreas habitadas, inclusive os disparos a partir de helicópteros", disse o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, acrescentando que o caso gera "sérias dúvidas" sobre o recente compromisso de Assad com um plano de paz internacional.

O enviado especial internacional da ONU para a Síria, Kofi Annan, condenou as "atrocidades", enquanto chegava à Internet um vídeo mostrando os resultados do massacre na província rebelde de Hama.

Annan disse que o incidente mostra que as resoluções da ONU pedindo a paz estão sendo descumpridas e informou que escreveu ao Conselho de Segurança pedindo penalidades à Síria por isso. Mas Rússia e China continuam usando seu poder de veto no Conselho para blindar Assad de qualquer sanção.

"A história julgará este Conselho", disse Hillary, enquanto a Casa Branca declarava que Assad perdeu a legitimidade para governar. "Seus membros devem se perguntar se continuar a permitir que o regime de Assad cometa uma violência indescritível contra o seu próprio povo é o legado que eles desejam deixar", afirmou a secretária.

RELATOS DA BATALHA

Um ativista local chamado Ahmed disse à Reuters que havia 60 corpos numa mesquita local, dos quais 20 foram identificados. "Há mais corpos nos campos, corpos nos rios e nas casas."

Não foi possível verificar de forma independente os relatos da batalha por causa das restrições do governo ao trabalho da imprensa internacional. A imprensa estatal qualificou as mortes como um massacre cometido por "grupos terroristas armados" e não citou cifras de mortos.

Alguns ativistas de oposição disseram que mais de 220 pessoas foram mortas, inicialmente por bombardeios de tanques e helicópteros, e depois pela invasão de homens de aldeias vizinhas, no que teria sido um ataque sectário da seita alauíta, de Assad, contra os sunitas, que são maioria no país.

Outras fontes disseram que o número de mortos no massacre foi bem inferior, mas certamente superior a 100, o que faria dessa uma das piores atrocidades em 17 meses de rebelião contra Assad.

Monitores da ONU tentaram chegar ao local na quinta-feira e confirmaram que houve uma batalha, mas disseram em relatório à sua sede, em Genebra, que foram barrados por oficiais sírios que citaram a ocorrência de "operações militares" na área.

Os monitores da ONU, todos eles militares desarmados, chegaram à Síria em abril para fiscalizar uma trégua que estava prevista no plano de paz de Annan, mas que não chegou a ser cumprida.

ATROCIDADES CONDENADAS

A batalha de Tremseh ocorreu num momento em que o Conselho de Segurança da ONU começa a negociar uma resolução potencialmente crucial para a Síria.

A Rússia, que mantém seu apoio a Assad, defendeu uma investigação sobre os incidentes.

"Esse malfeito serve aos interesses de potências que não estão buscando a paz, mas que persistentemente buscam semear as sementes do conflito civil e interconfessional (sectário) no solo sírio", disse nota da chancelaria.

Fontes rebeldes na província de Hama acusaram o governo de estar tentando realizar uma limpeza étnica.

"Um regime decidiu usar a força para esmagar o seu próprio povo", disse o presidente da França, François Hollande. Ele disse ter alertado China e Rússia de que, sem a adoção de sanções duras contra Assad, "o caos e a guerra vão tomar conta da Síria" de uma forma que acabará contrariando os interesses de Pequim e Moscou.

O chanceler britânico, William Hague, disse que os relatos de um massacre são críveis e exigem uma reação internacional.

Ele defendeu que monitores da ONU entrem imediatamente em Tremseh para apurar o que aconteceu. Sugeriu também que o Conselho de Segurança deve aprovar uma resolução enquadrando o caso da Síria sob o artigo 7 da Carta da ONU, o que abriria o caminho para a adoção de sanções e até uma eventual ação militar, algo que dificilmente China e Rússia deixarão acontecer.

(Reportagem adicional de Stephanie Nebehay, em Genebra; e de John Irish, em Paris)

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