Evelson de Freitas/Estadão
Evelson de Freitas/Estadão

Ceni-matográfico

'Rogério é um craque e sobre isso até Ignácio concorda', rebate músico: 'Não me consta que seu jeito tenha iniciado outra guerra na Crimeia'

Nando Reis,

26 Outubro 2013 | 15h33

 Sou são-paulino desde que nasci. Talvez até mesmo antes de ver a luz do dia. Nasci ruivo, branco e com olhos quase pretos: tricolor. Neto, filho, irmão e agora pai e avô de são-paulinos, costumava ser vítima dos petardos de meu irmão mais velho no portão de madeira que servia de gol na casa da Rua Santa Cristina. Usava o calção preto acolchoado típico do uniforme dos goleiros da época. Mas meu primeiro ídolo foi Pablo Forlan, o lateral-direito uruguaio e cabeludo cujo apelido era Tupamaro. Não era exatamente um desses locos em que as outras torcidas acham graça, porém sobrava sal no suor que encharcava sua camisa: sempre será lembrado mais pela raça que pela técnica. Livre é a memória daqueles que gostam de criar caricaturas.

Há uma semana me ligaram convidando para escrever um artigo sobre Rogério Ceni, que tinha desperdiçado no domingo seu quarto pênalti seguido. Foi o personagem da semana. Provavelmente meu nome foi lembrado, entre outros, porque, além de são-paulino notório e apaixonado por futebol, sou amigo de Rogério. Amizade essa que nasceu da admiração que temos um pelo outro. Rogério gosta de música e eu gosto de futebol. Já fizemos alguns programas de televisão juntos, eu batendo pênaltis nele (e errando) e ele tocando (mal) uma música minha. Devo a ele ainda a chance que não desperdicei de marcar um gol de canhota no Estádio do Morumbi, depois de receber um passe açucarado do guarda-metas (que jogava na linha) numa partida promovida pela Fundação Gol de Letra. O fato é que preferi não escrever pois qualquer coisa que dissesse soaria como se eu tivesse tomando partido do amigo. Mas Rogério não precisa de ninguém para defendê-lo: ele é o mestre das defesas.

Quem aceitou o convite foi o escritor Ignácio de Loyola Brandão, que escreveu um texto assustadoramente agressivo, desequilibrado. O título dado pelo jornal: Rogério Cênico. Artigo cínico? Talvez esteja mais para sintomático, pois o momento era favorável àqueles que gostam de especular sobre a desgraça alheia.

“Não gosto dele”, escreve Ignácio. (Rogério) “tem me dado poucas alegrias (quando falha), muitas tristezas (quando acerta). Não posso fazer nada”. O que dizer de alguém que se alegra com o infortúnio e se entristece com o júbilo alheio? Talvez fosse o caso de o escritor fazer uma investigação psicanalítica de sua própria personalidade. Se alegrar com a infelicidade dos outros deve ser uma forma triste de se sentir feliz.

O curioso é que Rogério voltou a ser o personagem da semana, e dessa vez por uma razão inversa. No jogo de quarta-feira não perdeu nenhum pênalti, tomou três gols, e mesmo assim ajudou o São Paulo a vencer (4 x 3) e se classificar graças a uma série de intervenções extraordinárias. E o destaque maior na atuação não foi a quantidade das defesas portentosas e sim o grau de complexidade. Não sei se Rogério é o dono do time, mas certamente naquela noite foi o dono do jogo. E isso me levou de novo a pensar nas colocações de Ignácio. “A cara é fechada, pouca vezes explode num riso que o coloca em sintonia com a plateia.” De que plateia fala o escritor? De que sintonia? Como parte dessa plateia que assiste a futebol, não é exatamente com o riso de um jogador que eu sintonizo. E arrisco a dizer que a sintonia se dá por um outro de tipo de alegria, que não está expressa no riso do rosto de quem joga, mas sim no sorriso que a grande jogada desperta em quem assiste. E quarta-feira vi o riso de Rogério explodir sintonizado na tela da TV numa alegria incontida, após a memorável atuação. E eu, satisfeito, sorri.

“Suscita ódio e fanatismo.” Não tenho notícias de que nenhuma grande defesa ou um pênalti perdido por Rogério tenha iniciado outra guerra na Crimeia. É mais provável que o ódio presente nos estádios se dê por razões muito pouco associadas ao futebol. Pelo contrário: creio que o bom futebol muitas vezes aplaca a ira daqueles que vão a nossos estádios que não oferecem condições para a prática do esporte. Fanatismo? O máximo a que assisti nesses anos é o entusiasmo enfático da torcida são-paulina que grita “PQP! É o melhor goleiro do Brasil”. Todo os bandos têm seus loucos.

Rogério é um grande goleiro, um craque, e sobre isso até Ignácio concorda. Se sua “imagem pétrea e ferozmente antipática” foi “formada, estudada”, ou se é “produto de marketing”, acho que ninguém nunca vai saber. Nem acho que isso seja relevante. Tenho a tendência a achar que o dado fundamental para que sua figura desperte sentimentos ambivalentes está em sua qualidade técnica associada ao elemento transgressor e desconcertante de ser um goleiro que também faz gols, muitos gols. Mas essa análise caberia à aqueles que conseguem se distanciar da paixão clubística. Não é meu caso: sou são-paulino demais e adoro ter no meu time um jogador desse quilate. Há anos vibro com seus grandes feitos. Por isso não queria escrever, mas acabei por fazê-lo. Talvez meu personagem da semana não seja o Rogério cênico, mas os clichês baratos de seus detratores.

* Nando Reis é músico e autor de Meu Pequeno São-paulino (Belas-Letras)

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