Censura marca a trajetória do jornal em diferentes épocas

Ditaduras rondaram a empresa, tanto que Julio Mesquita foi preso e, anos depois, seus filhos acabaram exilados

, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

Conflitos armados e ditaduras sempre foram sinônimo de censura para O Estado de S. Paulo. Isso ocorreu em quatro períodos no século passado, da Revolução Paulista de 1924 ao regime militar de 1964, passando pela Revolução Constitucionalista de 1932 e pelos sete anos do golpe do Estado Novo, de 1937. A exceção viria depois, em julho do ano passado, quando o desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, proibiu que o jornal publicasse informações sobre investigações feitas pela Polícia Federal sobre atividades do empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney. O Estado interpretou a decisão como censura prévia.

Na revolta dos paulistas contra o presidente Artur Bernardes, em 1924, o jornal foi censurado pelas duas partes em guerra - primeiro pelas tropas rebeldes do general Isidoro Dias Lopes que controlavam São Paulo e, depois, pelas forças vitoriosas do governo. Julio Mesquita foi preso e enviado para o Rio, então capital da República. Em 1932, seus filhos e sucessores na direção do Estado, Julio de Mesquita Filho e Francisco Mesquita, foram detidos e mandados para o exílio em Portugal, após a derrota das tropas paulistas que lutaram por uma nova Constituição.

O Estado viveu um período de trégua entre 1934 e 1937, na administração do governador Armando de Salles Oliveira, que encarregou Julio de Mesquita Filho, seu cunhado, de coordenar a criação da Universidade de São Paulo (USP).

A trégua durou pouco. Com o golpe do Estado Novo, voltou a censura. Julio de Mesquita Filho foi preso 17 vezes, entre novembro de 1937 e novembro de 1938, quando foi exilado para a França. Às vésperas da 2ª Guerra, ele foi para a Argentina.

Com a devolução do Estado, que passou mais de cinco anos sob ocupação da ditadura, de março de 1940 a dezembro de 1945, a empresa viveu um período de grande prosperidade. Os negócios se expandiram com a fundação da Rádio Eldorado em 1954 e do Jornal da Tarde em 1966. Mais tarde, surgiriam a Agência Estado (1970), a Oesp Mídia (1984), a Oesp Gráfica (1988), a AE Broadcast (1991) e o portal estadao.com.br (2000). Em junho de 1976, a empresa se mudou para a sede atual, no Limão, zona norte de São Paulo.

Receitas e poemas. A censura voltou com o Ato Institucional n.º 5, em dezembro de 1968. Agentes da polícia instalaram-se na redação e, depois, nas oficinas, para cortar textos, fotos e ilustrações. Julio de Mesquita Neto e Ruy Mesquita, que sucederam ao pai em 1969 (o irmão deles, Luiz Carlos Mesquita, morreu em 1970), resistiram à arbitrariedade, recusando-se a substituir o material proibido. Publicaram poemas (Estado) e receitas de bolo (Jornal da Tarde) para preencher o vazio. A censura acabou em 3 de janeiro de 1975, na véspera da comemoração do centenário do Estado. A repressão trouxe também ameaças, prisões e torturas de jornalistas dos dois jornais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.