Centenária, mas moderninha

Academia Paulista de Letras chega aos 100 anos com reformas e ideias para se atualizar e se abrir ao público

Filipe Vilicic, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

O térreo e os três andares da Academia Paulista de Letras (APL) estão cheios de pó. Mas isso porque os corredores por onde eventualmente passam aqueles que são chamados de imortais da literatura paulista, como o poeta Mário Chamie (dono da cadeira 26 da academia) e a escritora Lygia Fagundes Telles (da 28), estão mais movimentados que o usual. Além dos dez funcionários que costumam ser os únicos transeuntes dos salões, das galerias e da biblioteca da APL em dias normais, cerca de 30 operários e três restauradores têm batido ponto por lá desde junho. É a força-tarefa responsável por reconstruir e restaurar o auditório da academia, cujo teto ruiu em janeiro de 2007 por infiltração. Obra de R$ 4,5 milhões e financiada pelas Secretarias Estadual e Municipal da Cultura. O novo espaço será entregue de presente à APL, que completa 100 anos na sexta.

Tal iniciativa é parte do plano da academia de recuperar toda a sede, no Largo do Arouche, centro de São Paulo. A sede, que teve a pedra fundamental lançada em 25 de janeiro de 1948, foi tombada em maio pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado (Condephaat). "Vamos deixar o local parecido com o projeto original do arquiteto francês Jacques Pilon, com o mesmo forro no teto e banheiros iguais aos da década de 50", afirma a arquiteta restauradora Vanessa Kraml. "A ideia era finalizar a restauração na data do centenário", conta o desembargador José Renato Nalini, presidente da academia e dono da cadeira 40. Mas a obra atrasou e só deve ficar pronta em 2010.

Nalini deseja que o auditório remodelado sirva como impulso para também reformar a academia. "Quero marcar o centenário com uma mudança na imagem da APL, conhecida por ser um clube fechado, nostálgico e sisudo", afirma. "Deveríamos incentivar a renovação com um espaço aberto ao público e com atividades ligadas às artes paulistas." O presidente da entidade pretende promover peças, palestras e cursos no auditório. No espaço, ainda haverá uma galeria com computadores, em que visitantes poderão consultar as biografias de todos os acadêmicos que passaram pela instituição. Estarão disponíveis, por exemplo, informações dos escritores Monteiro Lobato (1882-1948), que ocupou a cadeira 39, e Plínio Salgado (1895-1975), a número 6.

A repaginação vem do início da gestão Nalini, em 2007. O atual presidente quebrou a tradição das reuniões internas e de portas fechadas dos 40 acadêmicos. Os encontros sempre ocorriam na sede, às quintas, a partir das 17h, depois de servido um chá (que às vezes contava também com uísque e cerveja), e duravam exatamente uma hora. O atual presidente gosta de promover encontros externos. Ele já levou os colegas à Casa das Rosas, ao Museu da Língua Portuguesa e ao Centro de Treinamento (CT) do São Paulo. "Essa história de achar que somos superiores e, por isso, devemos nos excluir só dificulta nossa missão de difundir o pensamento dos escritores", aprova a folclorista Ruth Guimarães. "Acham que a academia é inútil", completa a escritora Anna Maria Martins.

Mas existe também a oposição, que prefere preservar os valores tradicionais. Mário Chamie e Erwin Rosenthal, por exemplo, são conhecidos por discordar das ideias de Nalini. "Palestras e discussões abertas eram feitas antes da decadência da APL na última década e são iniciativas positivas", diz o poeta Chamie, que tem mais de 40 livros publicados. "Mas substituir sessões plenárias e produções internas por um teatro público, que visa à promoção de alguns membros e à sociabilidade fútil nos desvia da missão de debater e incentivar a literatura." Chamie ainda discorda do atual perfil da APL. "Hoje, a maioria dos membros não é de escritores, mas, sim, de pessoas ilustres em suas áreas que não têm contribuições para a literatura." Há acadêmicos empresários, como Antonio Ermírio de Moraes, e profissionais de Direito, como o presidente Nalini. "A academia está mais heterogênea e promove opiniões diferentes", rebate o presidente.

PRESENTES

Além da restauração do auditório e da tentativa de dar nova face à APL em seu centenário, foi lançado em junho um livro sobre os 100 anos da instituição. Escrito por Nalini, 100 Anos - Academia Paulista de Letras (Imprensa Oficial; R$ 120) trata da história da organização. Outros dois livros estão sendo preparados para o centenário. O aniversário ainda será comemorado em uma festa aberta na quinta-feira, a partir das 18h30, no Teatro do CIEE (Rua Tabapuã, 445, Itaim). Haverá pronunciamentos, como um do decano da academia, o poeta Paulo Bomfim, de 83 anos, empossado em 1963, e um concerto regido pelo maestro João Carlos Martins. Para participar é preciso se inscrever pelo telefone 3040-6541 ou no site www.ciee.org.br.

DOS 40 ACADÊMICOS

10 trabalham na área de Direito

11 publicaram romances

6 são poetas

4 foram ou são políticos, como o vereador Gabriel Chalita

O mais velho é o engenheiro Milton Vargas, de 95 anos

Paulo Bomfim, que tomou posse em 1963, é o decano

D. Fernando Figueiredo figura como único líder religioso

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