Cervejeiro visita fábrica e se redime com os santos

Roberto Fonseca fez uma peregrinação ao berço do estilo consagrado mundialmente, que influenciou o que há de bom - e de ruim - no mundo da cerveja

Roberto Fonseca, REPÚBLICA CHECA,

08 Julho 2010 | 09h33

Oásis da cerveja. Um pub que serva a urquell não filtrada à vontade. Foto: Roberto Fonseca/AE

 

 

 

Uma das maiores vergonhas de um cervejeiro é ter ido a um país que é berço de estilo mundialmente famoso da bebida sem pisar em nem sequer uma de suas fábricas. Vivi essa agonia com a Pilsner Urquell, criada em 1842 e mãe do estilo pilsen. Fui a Praga em 2002, mas leigo à época, não cogitei ir a Pilsen, lar da Urquell.

 

Pelos anos seguintes, imaginei que, se não fizesse a devida peregrinação, seria, tão logo desse meu derradeiro gole, levado a um tribunal e julgado pelos grandes patronos cervejeiros, Santo Agostinho, São Venceslau, São Arnoldo e São Columbano. "Você não prestou a devida homenagem ao estilo pilsen", diriam. No instante seguinte, lá estaria eu, condenado à eternidade como figurante em comercial de cerveja industrial de péssima qualidade.

 

Resolvi tomar uma atitude em maio deste ano, conciliando a visita cervejeira com a possibilidade de visitar Praga em dias ensolarados. O roteiro começou longe dos bares da praça da cidade velha (Staromestské námestí ), que cobram uma fábula de turistas que querem tomar a Urquell ao ar livre, olhando o relógio astronômico. Para o bem e o mal, a cidade ficou bem mais turística.

 

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Uma das amostras dessa mutação ocorreu na visita ao U Fleku, tradicional cervejaria e pub de Praga, do final do século 15, famoso por sua bela dark lager, com notas de toffee, chocolate, torrado e café. Cheguei sedento para reencontrar a cerveja, mas o que vi foi um garçom agitando insistentemente um copo de schnaps - destilado com forte sabor de álcool. Depois do quinto "não", capitulei. Um erro, pois ele "amortece" a boca e tira a sensibilidade para as sutilezas da cerveja.

 

O serviço é turístico (leia-se, rápido), o que tira o prazer de sorver a cerveja com calma. Mas vale a visita, principalmente se acompanhada de um tour pelos antigos equipamentos da cervejaria. Também é possível levar uma(s) garrafa(s) da cerveja para casa.

 

No dia seguinte, saí da Hlavní nádraží , a estação central de trem, para Pilsen. A parada final fica a poucos metros da fábrica da Urquell. A entrada chama atenção, com seu portão de pedra com esculturas erguido em 1892, quando a cervejaria fez 50 anos. A primeira parte da visita é burocrática, mas melhora com o "raio-x" da cerveja, do nascimento e crescimento do lúpulo à prova dos ingredientes (se não gosta de amargor, cuidado com o lúpulo).

 

Mas por que, na própria República Checa, quase não se veem placas com o nome local da cerveja (Plzenský Prazdroj), e sim no alemão Pilsner Urquell? O guia explica que a mudança tem razões turísticas: o nome globalizado é mais fácil de pronunciar.

 

O ponto alto da visita é a passagem pelos túneis sob a fábrica, que por muitos anos serviram para manter a cerveja abaixo de 8° C, temperatura ideal de maturação. Por um buraco no nível do chão, eram jogadas grandes quantidades de gelo em um salão subterrâneo; quando derretia, a água gelada escorria pelos corredores e resfriava as galerias.

 

No fim do gelado percurso, o visitante prova a Urquell maturada em barris de madeira, sem filtragem. É só um copinho, mas vale cada gota: com o fermento, a cerveja mantém notas mais destacadas de lúpulo no aroma e no sabor, além de um amargor fino. Infelizmente, entre os vários itens que podem ser comprados na loja da fábrica não há uma versão to go dessa receita. A boa notícia é que, não longe de lá, ao lado de um museu da cerveja, fica o Na Parkánu, um pub que serve a Urquell não filtrada à vontade.

 

Embora a fábrica tenha se modernizado e a produção em barris de madeira tenha hoje mais objetivos turísticos que de comercialização, é uma emoção visitar a terra natal da pilsen, principalmente ao passar pelos portões da fábrica de volta ao resto do mundo, repleto de cervejas sem aroma e sabor que nasceram como cópias da Urquell. No caminho para a estação, um "brinde" de despedida da fábrica, que, com a produção em andamento, despejava no ar um delicioso aroma de malte e lúpulo, sentido até a porta do trem.

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