Chacoalhando o esqueleto

Entre hoje e amanhã, caveiras estilosas tomam as ruas do México na festa do Dia dos Mortos. A mais famosa delas é La Catrina, idealizada pelo artista mexicano José Guadalupe Posada.

O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2012 | 02h11

Em São Paulo, Posada, cujo centenário de morte é comemorado em janeiro de 2013, e Jorge Amado, cujo centenário de nascimento foi comemorado em agosto deste ano, são os homenageados pela cozinheira Lourdes Hernández no menu do Dia dos Mortos na Casa dos Cordeiros, um dos restaurantes, bares e afins que promovem a festa mexicana na cidade (leia abaixo).

O maior símbolo da mesa dessa festa é o pão de muerto, temperado com água de laranjeira e de anis e decorado com ossos e lágrimas para simbolizar o luto e a saudade daqueles que se foram. Lourdes preparou o pão, ensinou a receita e também um depoimento sobre a festa dos mortos no seu país - leia ao lado.

Ingredientes

450g de farinha de trigo (e mais um tanto de farinha que você vai acrescentar à medida em que manipular a massa)

15g de fermento

125 ml de água

90g de açúcar para a massa

115g de manteiga

115g de banha

150g de açúcar refinado para polvilhar

2 ovos

7 gemas

5 colheres de água de flor de laranjeira

1 pitada de raspas de laranja

5 colheres de água de anis (que se obtém fazendo um chá com sementes de anis)

1 e 1/2 xícaras (de chá) de frutas cristalizadas

1 ovo para pincelar a massa

1 quarto de colher de chá de sal

Preparo

1. Dissolva o fermento em 8 colheres de água morna. Acrescente farinha até formar uma pasta que dê para fazer uma bola. Deixe a bola de massa num lugar morno até que dobre de volume.

2. Peneire o resto da farinha com sal, açúcar e misture com os ovos, gemas, água de laranjeira, água de anis, raspas de laranja e manteiga, amassando muito bem até obter uma pasta suave. Acrescente o fermento já pronto e continue amassando, batendo e, enfim, tudo o que o señor sabe muito bem. Força, carinho, crueldade, constância, bata mais uma vez: casamento perfeito. Unte a massa com um pouco de banha, ponha numa bandeja, tigela ou superfície, você que manda. Cubra com um pano umedecido e deixe lá até dobrar de volume (na minha casa isso leva até 10 horas).

3. Amasse de novo. Tiramos uma quarta parte da massa e, com o resto, fazemos uma bola que deixamos quietinha, mais uma vez numa bandeja engordurada. Com a outra massa formamos lágrimas e ossos, nada mais bonito que brincar de Deus, os colamos com ovo e os deixamos em paz - são mortos - até de novo dobrar de tamanho (mais ou menos 1 hora). Banhe com o resto do ovo e leve ao forno a 200°C por 30 minutos ou até que estejam bem assados e levemente dourados. 4. Por enquanto, misture 1 colher de fécula de milho em pouca água e coloque no fogo até que a mistura tome a consistência de um creme espesso. Tire a panela do fogo e banhe os pães, que já devem estar frios. Polvilhe por cima o açúcar.

Se essa história de pão de muerto e esqueletos deu vontade de festejar os mortos, fique atento amanhã para a reportagem de capa do Divirta-se. Ela é dedicada ao Dia dos Mortos e indica festas e jantares especiais, além de um roteiro de

bares e casas mexicanas para o ano inteiro. Na Casa dos Cordeiros, da mexicana Lourdes Hernández, vai ter pão de muerto, mole e tacos. É preciso fazer reserva pelo guisandeira@gmail.com. Obá, La Mexicana e Exquisito! também farão cardápios especiais para a data.

Muito já se escreveu sobre como os mexicanos convivemos e zombamos da morte com prazer. O tema da caveira é comum aos povos e às culturas pré-modernos. Comum ao mundo pré-hispânico e à Europa cristã medieval. A morte à mexicana tem duas vertentes: as caveiras e a festa dos mortos.

Os povos, dos dois lados do Atlântico, sempre estiveram acostumados não só às representações das caveiras, mas a conviver com a morte em si. Foi a partir do século 19, com a secularização da vida pública e as disposições sobre os enterros, que a morte ficou estranha ao homem moderno, para quem a visão das caveiras virou ofensiva.

No México temos as mesmas atitudes comuns a todo mundo quando damos de cara com a morte dum ser querido. Só que crescemos convivendo com esse universo sorridente das caveirinhas, que, mais que um ritual de evocação da morte, são reflexão sobre a vida, nossas fraquezas e vícios. Elas são sátira, gozação, bagunça absoluta. Aprendemos no berço músicas que dizem que "a vida não vale nada", "se vão me matar amanhã, é melhor ser morto já agora". Brincamos na corda bamba da língua que acaricia e deita com a morte, dançando numa vigorosa batalha perdida ante o incontornável. O ator Emilio el Indio Fernández, repetia que não tinha medo dela, mulher da última parada, nosso amor mais duradouro.

Octavio Paz escreveu que no mundo moderno tudo funciona como se a morte não existisse. "Tudo a suprime: as prédicas dos políticos, a publicidade dos comerciantes, a moral pública, os costumes (...) O século da saúde, da higiene, dos anticoncepcionais, das drogas milagrosas e dos alimentos sintéticos também é o século dos campos de concentração, do Estado policial, do extermínio atômico, do terrorismo institucionalizado..." Ninguém pensa na morte própria, como Rilke queria, porque ninguém vive uma vida pessoal.

As caveiras (que o diga o cineasta Tim Burton) estão aqui para cantar nossa história agridoce. Bailam o ritmo que você queira, gostam da bagunça eterna. Vivos e mortos, numa festa singela gozamos a vida. Tudo que nosso povo tem de irreverente, de sarcástico, de rir de si mesmo, pode ser visto nas chamadas caveiras. A oferenda de dia de mortos, efêmera e vital, é talvez esse nosso arar no deserto da vida mágica e eternamente finita.

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