Chance zero

Em 1999, quando Rubinho Barrichello recebeu o convite da Ferrari, o primeiro a saber foi seu chefe de equipe Jackie Stewart, que ele sempre respeitou como um amigo e conselheiro. Stewart perderia Rubinho, mas não foi isso o que o preocupou porque ele já vinha negociando a venda da equipe com a Ford, o que acabou originando a Jaguar. Foi pensando apenas na carreira do brasileiro que ele desaconselhou a ida para a Ferrari porque "lá o Schumacher manda em tudo". É como Jackie Stewart viu, agora, a troca que fez Jenson Button, deixando a Brawn para correr na McLaren. Lá, quem dá as cartas é Lewis Hamilton.

REGINALDO LEME, O Estadao de S.Paulo

20 de novembro de 2009 | 00h00

Há uma grande diferença entre os dois casos. Rubinho, quando aceitou a Ferrari de Schumacher, nunca tinha vencido na Fórmula-1 e sabia que tinha talento para vencer. Pagou caro pelo confronto com o alemão, mas saiu de lá com nove vitórias e dois vice-campeonatos. Button está indo para a McLaren já com um título de campeão e sete vitórias. Ele não precisava de uma McLaren para se tornar um vencedor e a Brawn, agora 100% Mercedes, não é um tiro no escuro como era no início de 2009. Se Button continuasse onde estava, teria status de primeiro piloto, dividindo a equipe com Nico Rosberg, um piloto de certo talento, que até hoje não venceu nenhuma. O risco seria a equipe dar mais atenção a Rosberg, por ser alemão. Mas se este eventual "patriotismo" fosse uma tendência, ele se esvaziaria na limitação de Rosberg como piloto líder de uma equipe. Sem contar que o comando vai continuar nas mãos de Ross Brawn, que sabe muito bem quem é cada piloto.

A McLaren trabalha para Lewis Hamilton. Esta é uma verdade desde a estreia do inglês em 2007, mesmo tendo na equipe o bicampeão mundial Fernando Alonso. Todo mundo sabe qual foi o resultado dessa mistura explosiva. Tudo bem que Alonso é um tipo bem mais encrenqueiro do que parece ser Button. Mas se Hamilton já tinha tudo em torno dele quando era um estreante, imagine agora, depois de três anos de convivência, com um título na bagagem e mais 11 vitórias. É bom somar a isso o fato de os dois serem ingleses. Habitualmente o maior adversário que um piloto tem é seu companheiro de equipe, com o qual ele está sendo sempre comparado por ter o mesmo carro. Se os dois são de um mesmo país, eles também disputam a preferência do torcedor e ? mais ainda ? os patrocinadores pessoais que cada piloto sempre consegue atrair na terra deles.

Numa coisa eles estão juntos. Ambos são capricornianos nascidos em janeiro. Hamilton nasceu no dia 7 e tem 24 anos. Button nasceu no dia 19 e tem 29. Button está na F-1 há 10 anos, com 170 GP"s. Hamilton só tem três anos e 52 GP"s. Historicamente a McLaren tem os melhores engenheiros da F-1 e, portanto, pode trabalhar igualmente dois carros. Mas até disso Stewart duvida ao classificar o trabalho da equipe inglesa como "excessivamente clínica, sem emoção ou união como a que Button viu na Brawn". Mas, se era um sonho de garoto correr pela McLaren, e com salário maior, vamos reconhecer que Button não está errado.

Em 1987, quando Senna assinou com a McLaren para correr ao lado de Alain Prost, o diretor da equipe Jo Ramirez me disse que tinha receio de Senna fracassar no confronto técnico e psicológico com Prost, citando o exemplo de Keke Rosberg, também considerado talentoso, e que tinha sucumbido na disputa com o francês. No entanto, o que se viu nos anos seguintes foi o contrário ? Senna conseguiu desestabilizar Prost, que acabou saindo da McLaren.

Acontece, mas é raro. A chance de uma inversão da expectativa agora entre Hamilton e Button ? vou arriscar ? é zero.

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