Charge que satiriza lei antiaborto nos EUA sofre boicote de jornais

Temendo perder leitores, editores deixam de publicar quadrinho que critica propostas do Partido Republicano.

Pablo Uchoa, BBC

12 Março 2012 | 15h15

Para os leitores desatentos, é apenas uma tirinha em quadrinhos no jornal diário.

Entretanto, nem todas as publicações que veiculam a série Doonesbury nos EUA gostaram da abordagem satírica que o autor, Garry Trudeau, fez da lei antiaborto que está em vigor no Texas e em tramitação no Estado da Virgínia.

Uma das charges mostra uma jovem na recepção de um consultório médico. Ela pergunta se é ali que se faz ultrassom - exame que, segundo a lei proposta, seria necessário antes de um aborto.

"É a primeira vez que você encerra uma gravidez?", pergunta a recepcionista. "Então precisa preencher este formulário e esperar na sala da vergonha."

"Na o quê?", surpreende-se a jovem. Ao que a recepcionista responde: "Um deputado estadual de meia-idade vai falar com você em um instante".

Em outra tira prevista para sair nos jornais nesta semana, uma mulher vai a uma clínica médica no Texas buscar contraceptivos. É recebida por um deputado estadual que lhe pergunta: "Seus pais sabem que você é uma vadia?"

Retórica antiaborto

Os cartuns de Trudeau satirizam a retórica antiaborto que tem sido adotada em nível estadual e federal por deputados e senadores do Partido Republicano.

Uma legislação do Texas requer que as mulheres que desejarem fazer abortos precisam antes passar por um exame ultrassom. A ideia, que está sendo discutida também na Virgínia, é fazer as mães reconsiderarem a sua decisão ao mostrar detalhes do feto.

Assinada em 2010 pelo governador do Texas e ex-pré-candidato republicano à Presidência, Rick Perry, a lei requer que os médicos mostrem e descrevam as imagens para as mães, e as façam ouvir as batidas do coração do feto.

As mulheres podem se recusar a ver ou ouvir o ultrassom, mas não as palavras do médico. A legislação está sendo contestada na Justiça por uma junta de médicos que acusa o governo de transformar a categoria em mensageiros ideológicos.

Na Virgínia, o debate esquentou depois que médicos apontaram para o "detalhe" de que exames na fase inicial da gravidez só podem ser realizados através de um instrumento similar a uma varinha - o que levou entidades de defesa dos direitos reprodutivos a qualificarem a lei de "estupro de Estado".

Em outra recente polêmica relativa à questão do planejamento familiar, conservadores criticaram uma instrução do Departamento (Ministério) da Saúde americano para que os planos de saúde cubram medicamentos contraceptivos.

Uma síntese desta crítica foi dada pelo apresentador de rádio Rush Limbaurgh, cujo programa tem uma audiência de 15 milhões de ouvintes em todo o país.

Discordando de uma estudante universitária que defendia a medida no seu programa, Limbaugh disse que a estudante, Sandra Fluke, queria que os contribuintes pagassem para que ela faça sexo.

"O que faz isso dela? Isso faz dela uma vadia, certo? Isso faz dela uma prostituta", disse Limbaugh.

Lenha na fogueira

A declaração do apresentador foi um tiro no pé: o presidente Barack Obama ligou para o celular da estudante e procurou capitalizar politicamente o fato. Até mesmo os porta-vozes republicanos, incluindo todos os pré-candidatos, condenaram a declaração de Limbaugh.

Entretanto, todos os pré-candidatos republicanos mantêm posições firmes contra o aborto, e mesmo contra outras medidas de planejamento familiar. Opiniões compartilhadas por seu eleitorado, sobretudo nos Estados mais conservadores.

As tirinhas de Trudeau alimentaram a polêmica, fazendo muitos jornais não se arriscarem a perder leitores conservadores com a publicação da sátira.

"Sentimos que o conteúdo (da tira Donnesbury) era demais para os leitores da nossa página de quadrinhos, voltada a família", expressou à agência AP um dos editores do diário Kansas City Star.

O Oregonian, de Portland, afirmou que Trudeau "ultrapassou a linha do bom gosto e do humor com uma série sobre o aborto usando linguagem gráfica e imagens inapropriadas para nossa página de quadrinhos".

Sue Rush, editora do sindicato que publica a tira, Universal Click, disse que, não sabe "quantos jornais deram ou não deram" a tira, mas que entre 30 e 40 publicações pediram quadrinhos alternativos.

É apenas a segunda vez nos mais de 40 anos da Doonesbury, publicada em 1,4 mil jornais em todo o mundo, que seu autor sofreu tanta objeção a seu trabalho. A primeira, em 1985, também tratava do mesmo tema: aborto.

"Ignorar (a polêmica) seria má prática da comédia", disse Trudeau ao jornal Washington Post, que optou por dar a tira. "Pensei que os direitos reprodutivos eram um assunto resolvido." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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