REUTERS/Mariana Bazo
REUTERS/Mariana Bazo

‘Chavismo não dá voto no Peru’

Peruanos aprendem que Bolívar, herói de Chávez, ‘foi terrível’ ao reduzir o país à metade para criar a Bolívia, diz professor da Unesp

CAROLINA ROSSETTI ,

11 Junho 2011 | 16h00

Antes de ser presidente do Peru e ganhar simpatizantes pelo combate ao grupo terrorista Sendero Luminoso; antes de ser preso por corrupção, evasão de divisas, genocídio e ter uma ideologia política batizada com seu sobrenome; antes de tudo isso, Alberto Kenya Fujimori dava aula de cálculo integral. "Numa reunião de ex-alunos em Lima concluímos que Fujimori, o professor, era igual ao presidente: sempre foi um cara mau, um sujeito ruim que adorava humilhar os alunos que tiravam nota baixa". A lembrança é do peruano Enrique Amayo Zevallos, ex-aluno de Fujimori na Universidade Nacional Agrária de La Molina e hoje professor de História Econômica e Estudos Internacionais Latino-americanos da Unesp.

 

Na entrevista a seguir, Amayo Zevallos comemora a derrota da herdeira do fujimorismo, fala do futuro político do Peru e diz que o afastamento de Ollanta Humala do projeto "falido" de Hugo Chávez não é artifício, mas realidade. Seu grande desafio será renegociar os convênios com as mineradoras, questão de grande apelo popular entre os setores da sociedade que foram decisivos para sua eleição. Para isso, a saída será um "governo de conciliação" nos moldes da Concertación chilena.

 

Conciliação

 

"Essa é a palavra mais importante para o governo de Humala. E soa muito como Concertación. O presidente eleito precisa se mirar no Chile, que teve seu mais glorioso momento - não é mais - quando forças progressistas fizeram um pacto para permitir a governabilidade. Humala sabe que metade do país queria Keiko e muitos peruanos só votaram nele para evitar o monstro do fujimorismo. Por isso, foi tão essencial o apoio do ex-presidente Alejandro Toledo, que permitirá a Humala ter maioria no Congresso, e do escritor Mario Vargas Llosa, que tem grande peso dentro e fora do país.

 

Opção ‘paz e amor’

 

"O primeiro tour pela América Latina ignora a Venezuela, o que já mostra uma opção de Humala pela moderação. Escolher o Brasil antes de qualquer outro país é também sinal da aliança com os petistas e reforça a imagem de "paz e amor" que emprestou de Lula. Temo, contudo, pelo pacote inteiro que vem com o PT e inclui práticas obscuras de financiamento de campanha, como as que resultaram no mensalão.

 

Chávez de escanteio

 

"Ninguém quer vincular sua imagem à de Hugo Chávez, que vive um momento impopular. Não é artifício de Humala dizer não ter mais vínculos íntimos com o venezuelano. O chavismo não dá voto no Peru. É um projeto ineficiente e falido. O bolivarianismo também não dá voto. Os peruanos aprendem na escola que Simon Bolívar foi terrível para a história do país, reduziu o território pela metade ao criar a Bolívia. Adotar o projeto chavista também implicaria romper com o acordo bilateral com os Estados Unidos. São acordos desses que explicam, em parte, o sucesso do Peru, que cresceu a taxas duas vezes maiores que o Brasil nos últimos cinco anos.

 

Medo e especulação

 

"O grande capital e a maioria da imprensa estão decepcionados porque apostaram todas as fichas na vitória do fujimorismo. Em seu projeto original, Humala falava em nacionalizar os bancos. Só depois fez um movimento para a centro-esquerda. Creio que não romperá com as regras do jogo, até porque não pode. Já vimos o que aconteceu na segunda, quando a bolsa de Lima teve uma queda histórica. Isso foi resultado de uma mistura de medo e gigantesca especulação sobre quem é Humala e como governará. Para manter o Peru no rumo do crescimento, ele terá que escolher alguém aberto ao mercado para administrar a economia. Mas terá que aliar o desenvolvimento à distribuição de renda para as camadas mais baixas, que foram excluídas da bonança dos últimos anos. É o que o país espera dele.

 

Mineradoras

 

"O Peru é rico em ouro, prata, cobre e zinco e as mineradoras do país estão entre as mais produtivas do mundo, mas retornam poucos recursos ao Estado. Não é preciso ser revolucionário para ver a necessidade de renegociar esses convênios. Algumas concessões para a exploração são da era Fujimori, quando o setor não tinha o sucesso de hoje. As mineradoras são ainda muito poluidoras. Territórios inteiros foram devastados e populações afetadas. Houve um número grande de abortos e crianças nascidas com defeitos físicos devido à contaminação por metais pesados dos lençóis freáticos. Por isso, o movimento dos afetados pela mineração é forte e apoiou Humala. Ele terá que honrar esse apoio.

 

Os Humalas

 

"Ollanta sempre teve um pé no mundo indígena e outro na Europa. O sobrenome Humala, do pai, é indígena, o primeiro nome também, mas Tasso, da mãe, é um nome de família aristocrata da Itália. Humalas sempre moraram na França e estudaram na Sorbonne. O pai de Ollanta, Isaac Humala Núñez, um comunista histórico e nacionalista indígena, instruiu os filhos sobre a importância da formação acadêmica. Não são, portanto, dirigentes políticos com níveis mínimos de educação. Os irmãos Ollanta e Antauro ingressaram na carreira militar porque essa era a única forma de chegar ao poder no Peru. (Antauro está preso até hoje por organizar um levante contra Toledo). Um terceiro irmão, Ulisses, é um acadêmico respeitado, que já foi candidato à presidência e briga publicamente com Ollanta, pedindo mais transparência do irmão quanto aos financiamento de campanha. É uma família peculiar, mas com gente inteligente que pode aconselhar Ollanta pela moderação sem esquecer o comprometimento com o social.

 

Os Fujimoris

 

"Fujimori é mau. Ele foi capaz de torturar a ex-mulher, Susana, quando ela denunciou as negociatas que ele fazia com o Japão. Ela sumiu por um tempo dentro daquele palácio de governo, foi torturada, depois reapareceu e foi diagnosticada como louca. Suas declarações não valiam mais nada. A filhinha, Keiko, virou primeira-dama e foi corrompida pelo pai. Ela nunca se pronunciou sobre a mãe. É disso que são capazes os Fujimoris.

 

Hotel de luxo

 

"Uma vitória de Keiko seria terrível não só para o Peru, mas para toda a América Latina, pois abriria uma janela de possibilidade para políticos com passados tão obscuros quanto o de Alberto Fujimori tentarem reconstruir suas carreiras. O maior interesse político de Keiko, se eleita, seria tirar o pai da prisão. Na prisão, Fujimori tem, entre outras regalias, um jardim de 10 mil m². Sua cela se transformou em centro para discussões políticas. É inacreditável. Humala sabe que terá que pôr panos quentes nessa história e fazer concessões. Talvez ele mande Fujimori para um lugar intermediário, que se pareça mais com uma penitenciária que com hotel de luxo."

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