Chefe do tráfico da Mangueira preso em SE chega ao Rio

Após prestar depoimento, ele passou por um exame no IML e foi enviado para o presídio de Bangu 1

BRUNO LOUSADA, Agencia Estado

23 Fevereiro 2008 | 19h46

O traficante Francisco Testas Monteiro, o Tuchinha, chefe do tráfico de drogas no Morro da Mangueira, chegou neste sábado, 23, ao Rio de Janeiro em um vôo comercial. Foragido da polícia carioca, ele foi preso em Aracaju, no Sergipe. Após prestar depoimento na Polícia Federal (PF), ele passou por um exame de corpo delito no Instituto Médico Legal (IML) e seguiu para o presídio de Bangu 1.Polícia prende chefe do tráfico da MangueiraO secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, disse que, com a prisão do Tuchinha, vai poder elucidar outros crimes. Segundo ele, essa foi uma ação conjunta da PF do Rio, de São Paulo e de Aracaju. Eles monitoraram a mulher de Tuchinha, Ana Paula Pereira de Carvalho, a Gracinha, que no meio da semana passada tinha viajado do Rio para a capital paulista e hoje embarcou para Aracaju.Segundo Beltrame, a investigação para descobrir o paradeiro de Tuchinha começou simultaneamente à expedição do mandado de prisão, em dezembro do ano passado. Ele pode ser condenado a 20 anos de prisão por tráfico.   Samba, tráfico e terror   No início de janeiro deste ano, uma operação foi realizada no Morro da Mangueira para cumprir sete mandados de prisão, entre eles o de Tuchinha. Na época, levantou-se a suspeita de que a informação sobre a operação havia vazado, uma vez que ninguém foi preso. Na ocupação, os policiais também destruíram a fortaleza construída pelos traficantes para observar e controlar o movimento no Morro da Mangueira.   Tuchinha ficou preso por 17 anos. Escutas telefônicas feitas em outubro do ano passado revelaram que o traficante, que estava em liberdade condicional desde julho de 2006, havia retomado o controle do tráfico de drogas no Morro da Mangueira. Segundo informações da polícia, Tuchinha também tinha influência sobre a escola de samba - teria acesso por uma passagem secreta à quadra da agremiação e freqüentava o camarote de luxo da bateria da Mangueira. A passagem secreta foi fechada com cimento e a diretoria da escola vem sendo investigada.   O traficante foi ainda um dos autores do samba da escola, sob o pseudônimo de Francisco do Pagode. O samba-enredo que ajudou a criar foi considerado o segundo pior deste carnaval, perdendo apenas para o da Vila Isabel. A Mangueira amargou o 10.º lugar, a pior colocação em 14 anos.     "Sem dúvida ele extrapolou sua atuação como traficante. Ele humilhou a Mangueira, aviltou o carnaval carioca, se apropriando de uma escola de samba tão tradicional. É uma comunidade muito querida, tão sofrida, e que não merece", disse o diretor da Divisão Anti-Seqüestro, delegado Fernando Morais.   Tuchinha tinha o hábito de ir à Avenida Marquês do Sapucaí, acompanhar o desfile da escola. Fernando Moraes disse que não tem informações ainda de que ele esteve no Sambódromo neste carnaval. "Ele ficou no Rio até 8 de fevereiro, sexta-feira depois do carnaval. É possível que ele tenha ido, mas acredito que não. Ele disse que assistiu ao desfile pela tevê". O desfile da Mangueira foi acompanhado por policiais à paisana. Havia o boato de que um integrante da bateria seria preso após a apresentação, mas isso não se confirmou.   A liberdade condicional de Tuchinha foi revogada em abril de 2007. Em fevereiro, o criminoso havia sido seqüestrado por policiais. Há informações de que a quadrilha teria pago cerca de R$ 1 milhão pela liberação do traficante. Desde então, Tuchinha não voltou mais à casa do albergado, onde deveria assinar um livro de presença, condição para permanecer em liberdade. Segundo seus advogados, ele temia novo seqüestro. Teve o benefício suspenso, mas não se entregou.   O traficante também é acusado de ter mandado matar, em junho de 1998, Alcyr Explosão, mestre de bateria da escola. "O Tuchinha não investia dinheiro na Mangueira. Acredito que ele tirava dinheiro, aterrorizando as pessoas honestas dali", disse o delegado, ao garantir que o traficante é responsável pela morte de Alcyr Explosão. "Ele tem vários outros homicídios", acrescentou.     Expansão dos domínios       O criminoso saiu do Rio em 8 de fevereiro e passou por São Paulo e Bahia, antes de ser preso. Tuchinha tentava expandir seus domínios para o nordeste, acredita o delegado Fernando Moraes, da DAS, que prendeu o traficante. "A Secretaria de Segurança está analisando informações de que, com o PAC, (Plano de Aceleração do Crescimento, que prevê intervenções no Complexo do Alemão, reduto do Comando Vermelho) o tráfico esteja estendendo seus domínios para outros Estados. A Polícia Federal de Sergipe já estava investigando a implantação do tráfico na região. Eles querem levar o know how adquirido no Rio para outros Estados", afirmou Moraes, em entrevista à Rádio CBN.   "Tivemos ajuda da Polícia Federal do Rio de Janeiro e de São Paulo para rastreá-lo. O sucesso dessa missão se deve à integração entre as polícias", disse o delegado. Na operação conjunta, participaram cerca de 20 policiais do DAS e da Polícia Federal de São Paulo, Rio de Janeiro e Sergipe.   Segundo Morais, o traficante iria comandar o tráfico no Morro da Mangueira a partir de Aracaju. "Ele manteve contatos com diversas pessoas do crime para isso, mas conseguimos abortar seus projetos", disse o delegado, que não entrou em detalhes sobre os supostos contatos que Tuchinha teria feito. O traficante, afirmou o delegado, também tem fortes ligações com o Fernandinho Beira Mar.   (com Antônio Carlos Garcia e Clarissa Thomé)

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