Chega de ler sobre comida? Então só pense nela, como Pepe Carvalho

Detetive catalão desvenda assassinatos e a culinária mágica da Espanha

Cíntia Cristina da Silva, O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2008 | 03h44

Grandes personagens do romance policial - de Philip Marlowe a Travis McGee, criações dos escritores Raymond Chandler e John D. MacDonald - costumam ter especial predileção pelo copo. Se Pepe Carvalho encontrasse esses colegas de profissão numa noite qualquer, na Califórnia, Flórida ou Barcelona, é provável que não recusasse um convite para um drinque. Ainda mais provável é que, com Carvalho no grupo, a noite terminasse na mesa. E possivelmente seria o catalão, personagem do escritor espanhol Manuel Vázques Montalbán, quem iria para o fogão. O detetive de Vázquez Montalbán, além do cinismo e sarcasmo necessários à profissão, tem uma peculiaridade: consola-se da incurável melancolia comendo e cozinhando. É por isso que suas aventuras detetivescas, deliciosamente bem-escritas e cheias de cadáveres, estão coalhadas de referências gastronômicas - citações a restaurantes, cheiros, sabores e receitas.   Veja também: Espinafre à Pepe Carvalho Pepe Carvalho sabe comer. Para ele não há nada como ir ao Mercat de la Boquería (o mercado municipal de Barcelona), vagar pelas ruas ''impregnadas pelo cheiro de camarão frito'' de sua cidade natal e transitar livremente, como convém a um bom detetive particular, pelo submundo. Pepe tem um ajudante, Biscuter, personagem exótico que cozinha, com muito azeite e gordura. Tem também uma namorada, Charo, que labuta na mais antiga das profissões. Pepe não é fascista, mas gosta de queimar livros que lhe deram prazer algum dia. Explica a excentricidade a Fuster - conselheiro espiritual e gastronômico - dizendo que ''não nasceu para crítico literário'' e cultura é ''cortar um boi com sabedoria e temperá-lo com chimichurri''. Em seu último livro lançado no País, Balneário (Companhia das Letras, R$ 39) - aproveite o embalo para ler os outros -, Vázquez Montálban manda Pepe para um spa vegetariano. Anos de comilança desenfreada haviam deixado o detetive perto da ruína. A dieta no SPA, à base de suco de cenoura, é pavorosa. Felizmente ocorre uma série de assassinatos para ocupar Pepe. Enquanto tenta desvendar o mistério, Pepe sonha com a volta ao mundo gastronômico, ''uma grande bouffe suicida pela Catalunha, incluindo o El Bulli, para compensar aquele pântano de caldo vegetal que apodrecia seu cerébro''.

Mais conteúdo sobre:
livros gastronomia

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.