China investe para se tornar líder global em geração de energia verde

Hoje, país é o que mais emite gases de efeito estufa, além de ter 70% de seus rios, lagos e reservatórios contaminados

Cláudia Trevisan, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

A China é o país que mais emite gases que provocam o efeito estufa, tem 17 das 25 cidades mais poluídas do mundo e 70% de seus rios, lagos e reservatórios estão contaminados. Tudo isso é verdade. Mas o país asiático também investe bilhões em tecnologias verdes e caminha rapidamente para se tornar um líder do setor, com a meta de ter 20% de sua energia retirada de fontes renováveis em 2020.

As autoridades chinesas concluíram que os problemas ambientais podem comprometer o próprio desenvolvimento do país e afetar a estabilidade social que tanto prezam. Afinal, nada menos que 720 milhões de seus 1,3 bilhão de habitantes vivem na zona rural e dependem de terras e águas cada vez mais ameaçadas pela poluição.

Além disso, a expansão de tecnologias verdes é considerada uma poderosa fonte de crescimento econômico, que ganhou ainda mais importância com a retração da demanda mundial por exportações chinesas a partir de 2008, em razão da crise financeira global.

O potencial do setor é grande o bastante para amenizar as divisões entre as duas principais correntes do Partido Comunista - a que defende o crescimento acima de tudo e a que também se preocupa com aspectos ambientais e sociais. "Eles resolveram o conflito quando concluíram que a revolução verde é a nova revolução industrial e a grande fonte de crescimento do século 21. O governo está colocando bilhões de dólares nesse setor", observa Sidney Rittenber, consultor norte-americano que se filiou ao PC chinês nos anos 40, participou da Revolução de 1949 e viveu no país até o fim dos anos 70.

Entidade que reúne multinacionais, ONGs, investidores, representantes de governos e especialistas que atuam na área de energia renovável, a China Greentech Initiative acredita que esse mercado poderá ter movimento anual de US$ 500 bilhões a US$ 1 trilhão em 2013, o que na cifra mais alta representaria 15% do PIB chinês previsto para aquele ano.

Os investimentos crescem a um ritmo muito superior ao da expansão da economia e receberam impulso adicional com o pacote de estímulo de US$ 586 bilhões anunciado por Pequim em novembro de 2008, logo depois da eclosão da crise global. Nada menos que 37% desses recursos são destinados a projetos na área de tecnologias verdes, estima a China Greentech Initiative.

POTÊNCIA AMBIENTAL

O World Watch Institute, com sede em Washington, se refere à China como uma "potência ambiental emergente" e afirma que o país caminha para se tornar o líder global em energia renovável, conceito que abrange todas as fontes que utilizam recursos inesgotáveis da natureza como sol, vento e água corrente. Os ambientalistas costumam excluir da classificação as grandes usinas hidrelétricas, em razão do impacto negativo delas sobre o ecossistema.

Em 2007, os chineses investiram US$ 12 bilhões em energia renovável, cifra que só ficou atrás dos US$ 14 bilhões registrados na Alemanha e representou 12% do total desembolsado em todo o mundo naquele ano.

A China dobrou a capacidade instalada para produção de energia eólica em cada um dos últimos cinco anos e caminha para ter a segunda maior potência mundial em 2010, atrás apenas dos Estados Unidos, com geração de 30 GW (gigawatts) - meta que será atingida uma década antes do previsto.

Agora, Pequim trabalha para gerar 100 GW com utilização do vento em 2020, cifra que equivale a toda a capacidade instalada de geração de energia do Brasil, incluindo Itaipu, que gera 14 GW.

"O investimento em energia eólica disparou na China. É um negócio gigantesco e a quantidade de plantas que eles estão construindo é a maior em todo o mundo", afirma o brasileiro Paulo Soares, que há dez anos vive no país e, há cinco, comanda a operação local da indiana Suzlon, uma das líderes globais do setor.

Em 2005, a empresa tinha três pessoas na China, incluindo Soares. Hoje, são 100, muitas das quais trabalhando na única grande fábrica da Suzlon fora da Índia. A decisão de produzir na China foi adotada em razão da exigência do governo de que 70% dos equipamentos tenham conteúdo nacional. Para os demais países, incluindo o Brasil, a Suzlon exporta turbinas fabricadas na Índia. Soares ressalta ainda que a China tem o maior potencial eólico do mundo, com 250 GW em terra e 750 GW no mar.

Os chineses já são os líderes mundiais na utilização de painéis solares para aquecimento de água, com 67% da capacidade instalada no planeta, de acordo com o Renewable Energy and Policy Network for the 21st Century (REN21).

Cerca de 10% das famílias chinesas se valem do sol para aquecer a água que utilizam em suas casas. A meta do governo é dobrar o porcentual até 2020. Na avaliação da Agência Internacional de Energia, esse sistema evitou a emissão de 14 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 2005. As emissões globais da China atingiram no ano passado 6,9 bilhões de toneladas, o equivalente a 20% do total mundial.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.