China tem longa tradição de controle estatal sobre mosteiros no Tibete

Protestos recentes marcam 49 anos da revolta tibetana de 1959.

Peter Firstbrook, BBC

22 de março de 2008 | 03h10

A repressão chinesa contra as manifestações promovidas por monges em Lhasa é parte e uma longa tradição de controle estatal dos mosteiros budistas no Tibete, como mostra a série "Um ano no Tibete", produzida pelo canal britânico BBC 4.Como estão entre as poucas instituições chinesas com potencial para organizar a oposição ao governo, os mosteiros budistas são motivo de preocupação para o Partido Comunista Chinês.O controle estatal dos mosteiros começou logo que o Exército de Libertação Popular da China marchou em direção ao Tibete em 1950.Os protestos recentes marcam os 49 anos da revolta tibetana de 1959, quando manifestações anti-chineses e anti-comunistas foram reprimidas nas ruas de Lhasa.Os três maiores mosteiros de Lhasa - Sera, Drepung e Ganden - foram seriamente danificados por disparos. O Dalai Lama foi forçado a se exilar e o governo tibetano no exílio estima que 86 mil tibetanos morreram.Menos de uma década depois, a Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung levou à destruição de mais de 6 mil mosteiros e conventos. Poucos sobreviveram ao período.Além dos prédios, foram destruídos centenas de milhares de estátuas, tapeçarias e manuscritos."Naquela época todos os mosteiros foram destruídos. O país inteiro estava mudando durante a revolução. Não era possível parar a onda de mudança", diz Dondrup, um monge de 77 anos do Mosteiro Pel Kor, em Gyantse.Panchen LamaOutro sinal do controle chinês sobre o budismo tibetano ocorreu em 1995, com a nomeação da nova encarnação de Panchen Lama, segunda figura mais importante na hierarquia espiritual do Tibete depois do Dalai Lama.O Dalai Lama selecionou Gedhun Choekyi Nyima, um menino de seis anos, mas depois de alguns dias o menino e seus pais desapareceram, aparentemente abduzidos.Logo depois, o governo chinês anunciou que o escolhido era Gyaltsen Norbu, filho de dois funcionários do Partido Comunista Tibetano, que foi levado para Pequim, onde vive atualmente e raramente aparece em público.A maioria dos monges o considera um lama "falso", mas ele é venerado pelos tibetanos comuns.A equipe da BBC filmou sua visita ao mosteiro Pel Kor em Gyantse em setembro de 2006. Ficou claro que as autoridades estavam preocupadas com as manifestações, já que havia centenas de policiais e soldados nas ruas e os monges tinham que passar pela revista policial antes de entrar no monastério.Vida controladaDesde os anos 80 o governo chinês começou a reconstruir alguns dos mosteiros, que também receberam maior liberdade de religião, embora continue limitada.Mas quase todos os aspectos da vida dos monges budistas é controlado pelo governo.Todos os mosteiros e conventos no Tibete são visitados a cada poucas semanas por um representante do Partido Comunista, que verifica se as regras do governo estão sendo aplicadas corretamente.O governo também controla cuidadosamente o processo para a formação dos monges. Todos os noviços têm que passar por um detalhado processo de checagem que pode demorar vários anos e inclui a verificação do histórico subversivo de suas famílias.O governo também restringe o número de monges. Na verdade, os mosteiros não podem mais desempenhar vários de seus rituais corretamente porque existe uma falta de monges.O mosteiro de Pel Kor já teve 1.500 monges, de acordo com o Tsultrim, o segundo na hierarquia do local. Hoje o governo chinês restringe o número a no máximo 80.Os recentes conflitos nas ruas de Lhasa repetem eventos de 20 anos atrás, a última vez que ocorreram manifestações de grandes proporções.Hoje, há uma diferença importante: a tecnologia. Praticamente todos os monges tibetanos têm um telefone celular. Têm inclusive um bolso costurado dentro do traje para guardá-lo.Se no passado era muito difícil a comunicação através do grande território tibetano, hoje a comunicação está a apenas uma mensagem de texto de distância.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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