Cientista fez fama no exterior e se aproximou de líderes do PT

Céticos quanto à possibilidade de Nicolelis levar o Nobel, cientistas consideram expectativa chamariz de apoio oficial

O Estado de S.Paulo

16 Dezembro 2012 | 02h08

Desde que voltou a atuar no Brasil, dez anos atrás, para promover o projeto que resultou no Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN), Miguel Nicolelis conquistou um status político superior ao de qualquer outro cientista brasileiro, apesar de não morar no País e não ter vínculo empregatício com nenhuma instituição pública de ensino e pesquisa.

Em 2008, assinou um artigo com o então presidente Lula e o então ministro da Educação, Fernando Haddad, na Scientific American, a mais conceituada revista de divulgação científica do mundo - algo inusitado, tanto do ponto de vista do cientista quanto dos políticos. O artigo falava sobre os avanços do Brasil na educação e fazia uma apresentação do projeto Câmpus do Cérebro, em Macaíba, descrito como o "mais abrangente programa de educação científica e tecnológica na história do Brasil".

Mais recentemente, Nicolelis fez campanha pela eleição de Haddad à Prefeitura de São Paulo, participando de eventos e gravando um vídeo de apoio ao candidato. Também se tornou próximo do ex-ministro da Ciência e Tecnologia e atual ministro da Educação, Aloizio Mercadante.

Nos últimos dois anos, teve duas audiências com a presidente Dilma Rousseff, em julho de 2011 e outubro de 2012. Um privilégio inusitado. O presidente da Academia Brasileira de Ciências e a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, por exemplo, nunca foram recebidos pela presidente, segundo informações do próprio Palácio do Planalto.

Nobel. Muito da fama e influência de Nicolelis se baseia numa expectativa de que ele estaria na iminência de ganhar um prêmio Nobel por suas pesquisas no campo da interface cérebro-máquina (ICM), em que comandos cerebrais são captados por eletrodos implantados no cérebro e "traduzidos" em comandos digitais, capazes de movimentar próteses e outros aparatos robóticos.

Em novembro de 2000, Nicolelis publicou um trabalho pioneiro sobre o assunto na revista Nature, relatando um experimento no qual uma macaca no seu laboratório da Universidade Duke comandava um braço robótico usando apenas sua atividade cerebral. É o trabalho mais citado de sua carreira, que lhe rendeu vários prêmios e recursos - incluindo um contrato de US$ 26 milhões (cerca de R$ 55 milhões) entre a Duke e a Darpa, a agência de pesquisa e desenvolvimento tecnológico do Departamento de Defesa americano, que financia parte de suas pesquisas com ICM na universidade.

Em janeiro de 2008, Nicolelis divulgou um outro experimento famoso, no qual uma macaca caminhando sobre uma esteira em seu laboratório comandou os movimentos de um robô humanoide no Japão, com seus impulsos cerebrais transmitidos via internet em tempo real.

O experimento foi tema de uma reportagem no jornal The New York Times e teve grande repercussão na mídia internacional, mas os dados técnicos da pesquisa nunca foram publicados, impossibilitando outros cientistas de analisar e validar os resultados de forma independente - uma atitude vista como anticientífica e pouco transparente por muitos pesquisadores.

Simpósio. Alguns meses depois, em maio de 2008, Nicolelis participou de um simpósio organizado pela Fundação Nobel, chamado Máquinas, Moléculas e Mente. Ele foi um entre 30 cientistas de vários países que se apresentaram no evento, incluindo dois de seus principais concorrentes no campo da ICM, John Donoghue, da Universidade Brown, e Andrew Schwartz, de Pittsburgh. Ainda assim, a participação no evento - parte de uma série de simpósios que a Fundação Nobel realiza periodicamente desde 1965, sobre diversos temas - semeou a expectativa de que Nicolelis é um candidato imediato ao maior prêmio da ciência mundial.

Para vários cientistas de ponta da comunidade brasileira, trata-se de uma expectativa "fictícia", que só existe no Brasil. Muitos, em conversas reservadas, acusam Nicolelis de "prometer muito mais do que é capaz de entregar" e fazer sensacionalismo de suas pesquisas para ganhar apoio político e financeiro para seus projetos.

"Ele vendeu essa propaganda do Nobel e todo mundo comprou", diz um cientista. "É uma grande balela. Nicolelis não é o primeiro nem o único nem o melhor na sua área de pesquisa", afirma outro. "Ele pode até ganhar um dia, mas o prêmio será da Duke, não do Brasil", avalia Roberto Lent, da UFRJ. / H.E.

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