Cientistas tentam recriar pela 2ª vez início do universo

Cientistas tentam recriar pela 2ª vez início do universo

Primeira tentativa, em 2008, resultou em acidente que danificou equipamento; iniciativa já consumiu o equivalente a R$ 24 bilhões

GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

30 de março de 2010 | 00h00

Cientistas na Europa tentam realizar hoje um experimento que vai lançar luz sobre as origens do universo e sobre grandes questões da Física Moderna. É a segunda vez que os cientistas colocam em funcionamento o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), do Centro Europeu de Pesquisa Nuclear (Cern).

Na primeira tentativa, em setembro de 2008, um sério acidente comprometeu o equipamento e exigiu um ano de reparos. No fim de 2009, o acelerador voltou a funcionar com metade da potência. Agora, a ideia é submetê-lo às condições previstas para iniciar as pesquisas.

Dois feixes de 1 bilhão de prótons cada um, acelerados a uma velocidade próxima à da luz, percorrerão um túnel circular de 27 quilômetros. Se tudo der certo, em algum momento, as partículas vão se chocar, reproduzindo os instantes posteriores ao Big Bang, há 13,7 bilhões de anos. Quatro grandes detectores ? Atlas, Alice, CMS e LHCb ? registrarão milhões de eventos subatômicos e enviarão os dados para cientistas do mundo inteiro (mais informações no quadro).

A iniciativa contou com mais de 20 anos de pesquisa, o equivalente a R$ 24 bilhões de investimento e o trabalho de cerca de 10 mil pesquisadores de 80 países. As construções ficam a uma profundidade de 100 metros, em Genebra, na Suíça, próximo à fronteira com a França.

Em dezembro, o sistema atingiu seu recorde: os prótons viajaram a 2,36 TeV (trilhões de eletronvolts). Já foram publicados trabalhos científicos com os resultados preliminares observados. Hoje, os cientistas querem que os feixes alcancem uma velocidade de 7 TeV. Será a maior aceleração já obtida. Em dois ou três anos, os pesquisadores pretendem desligar o aparelho, para depois reiniciá-lo com uma energia de 14 TeV.

Impacto. Serão necessários vários anos para processar todos os dados produzidos no LHC e o impacto das descobertas ainda constitui uma incógnita. "Quando começaram as pesquisas com nanotecnologia, era difícil prever os frutos", aponta Sérgio Novaes, do Instituto de Física Teórica da Universidade Estadual Paulista, recordando que medicamentos e materiais surgiram graças às pesquisas sobre a matéria em dimensões nanométricas.

O LHC vai revelar aspectos de dimensões menores da natureza. Novaes acredita que as consequências serão surpreendentes.

No Brasil, os dados produzidos por um dos detectores ? o CMS ? passarão pelo Centro Regional de Análise de São Paulo (Sprace, em inglês), no câmpus da Unesp na Barra Funda, zona oeste de São Paulo. O CMS é o maior detector, com 15 metros de altura e 12,5 mil toneladas, mais do que a Torre Eiffel.

Novaes coordena o centro brasileiro de controle do CMS. Haverá outros 26 centros regionais espalhados pelas Américas, Ásia, Austrália e Europa.

Os centros internacionais analisarão os dados e verificarão se são fidedignos. Em caso de erro ou interferência, um técnico estrangeiro poderá fazer ajustes remotamente no equipamento. Em último caso, entrará em contato com a equipe em Genebra. / ALEXANDRE GONÇALVES, com EFE

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