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Cientistas testam fungo contra malária

Dois genes inseridos no fungo - um que produz um anticorpo e o outro, uma toxina de escorpião - mataram o causador da doença

Alexandre Gonçalves, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2011 | 00h00

Um fungo transgênico é a mais nova arma contra a malária. Pesquisadores inseriram dois genes no fungo Metarhizium anisopliae, que infecta insetos. Um deles produz um anticorpo e o outro, uma toxina obtida de escorpiões. As duas substâncias matam o microrganismo causador da malária. A ideia é infectar mosquitos com o fungo, eliminando o parasita dentro do inseto.

A equipe de cientistas de universidades britânicas e americanas inclui o brasileiro Marcelo Jacob-Lorena, da Escola de Saúde Pública John Hopkins, nos EUA. Um estudo publicado no último número da revista Science analisa a eficácia da técnica.

Os cientistas estudaram três grupos de mosquitos Anopheles portadores do Plasmodium falciparum, um dos protozoários que causam malária. O primeiro grupo foi exposto ao fungo transgênico. O segundo foi infectado pelo mesmo fungo, mas em sua condição natural, sem os dois genes antimalária. O terceiro serviu como controle, sendo poupado do contato com o fungo.

Apenas 25% dos mosquitos infectados pelo fungo transgênico apresentaram protozoários nas suas glândulas salivares. O mesmo porcentual, em insetos expostos ao fungo comum, foi de 87% e no grupo controle, 94%.

Mesmo nos 25% de mosquitos que ainda portavam o protozoário, houve redução de 95% no número de parasitos encontrados nas glândulas salivares em comparação com a mesma contagem nos insetos expostos ao fungo comum. "Nosso principal objetivo é iniciar os testes em campo na África o mais rápido possível", diz o coordenador da pesquisa, Raymond St. Leger, da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos.

O fungo Metarhizium anisopliae já é usado para o controle de pragas, pois há cepas extremamente letais para os insetos. No estudo contra a malária, porém, os pesquisadores escolheram cepas de fungos toleradas pelos mosquitos, pois o objetivo era matar os microrganismos causadores da doença e não os insetos.

Elói Garcia, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC-Fiocruz), elogia a estratégia. "Os insetos adquirem rapidamente resistência aos inseticidas e aos métodos de controle biológico", explica. "É praticamente impossível eliminá-los em seu hábitat natural. Muito mais inteligente é fazer com que eles não carreguem o protozoário da malária."

No Brasil. Garcia relata que a Fiocruz também tem pesquisado uma abordagem semelhante para eliminar o Trypanosoma cruzi, microrganismo causador da doença de Chagas, dentro de barbeiros, inseto que atua como vetor da doença.

Mas, em vez de fungos transgênicos, os brasileiros utilizam bactérias. "Há várias bactérias capazes de matar o T. cruzi", explica o pesquisador da Fiocruz. "Não utilizamos organismos transgênicos, pois exigem um esforço muito maior para obter as autorizações sanitárias."

Os cientistas percebiam que alguns insetos não portavam o T. cruzi, mesmo após se alimentarem com sangue infectado pelo parasita. Levantaram a hipótese da presença de outros microrganismos que matariam o protozoário da doença de Chagas no sistema digestivo do barbeiro. Descobriram algumas bactérias, como a Serratia marcescens.

"Esses microrganismos poderiam ser aplicados misturados a um tipo especial de tinta nas paredes das casas", cogita Garcia. "Assim, as bactérias entrariam no inseto quando ele caminhasse pelas paredes da casa."

Óleo. No início da semana, pesquisadores holandeses divulgaram uma forma bastante eficaz de espalhar os esporos - estruturas que funcionam como sementes - do fungo M. anisopliae no ambiente: misturar os esporos a um óleo sintético chamado ShellSol T. Depois, bastaria lançar o óleo com os esporos na água onde vivem as larvas do mosquito.

Os holandeses utilizaram uma cepa do fungo letal para os insetos. Em um teste realizado no Quênia e descrito na revista científica Parasites and Vectors, os pesquisadores mostraram que a técnica aumenta em até 50% a mortalidade das larvas do mosquito.

SOBRE A DOENÇA

O que é

A malária é uma doença infecciosa febril aguda. Os agentes causadores são os protozoários do gênero Plasmodium. Os microrganismos são transmitidos por mosquitos do gênero Anopheles. Há remédios eficazes contra a doença.

Principais sintomas

Dor de cabeça, dor no corpo, fraqueza, febre alta e calafrios. Em geral, esse quadro é acompanhado por dor abdominal, nas costas, tontura e náusea.

Dados da epidemia

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), há 300 milhões de novos casos da doença no mundo todos os anos, responsáveis por cerca de 800 mil mortes. No período de 1999 a 2008 houve uma redução gradativa do número de casos de malária na Amazônia, com média de 496 mil por ano.

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