Cine Niterói, ou ‘Herói do Japão’

A história do cinema que transformou o bairro da Liberdade

Felipe Lavignatti,

06 de outubro de 2007 | 13h40

De simples bairro oriental a ícone da maior cidade brasileira. Se a Liberdade conseguiu êxito nessa transição, isso se deve, em parte, a um cinema com nome que mais lembra as praias fluminenses do que a terra do sol nascente. Em 1953, a família Tanaka inaugurou o Cine Niterói, na Rua Galvão Bueno, com a proposta de exibir somente filmes em japonês. O espaço acabaria se transformando no centro da comunidade nipônica e incluindo o bairro na cena cultural paulistana. A idéia de montar o empreendimento, no entanto, surgiu bem longe da Capital, em Santa Mariana, no norte do Paraná. Foi ali que Shiguezi Tanaka se instalou com a mulher e quatro filhos, em 1924. Haviam deixado uma fábrica de botões para tentar a sorte nas lavouras.  A idéia inicial da família era ficar no Brasil apenas o tempo suficiente para fazer dinheiro. Tanto é que os filhos nem sequer haviam retomado os estudos. "Meu pai queria voltar, mas eu e meus irmãos, não", lembra o caçula, Susumu Tanaka, hoje com 93 anos. Foi Yoshikazu, irmão mais velho de Susumu, quem teve a idéia de construir o cinema em São Paulo. Susumu, em 1950, estava prestes a comprar uma fazenda quando o irmão lhe fez a proposta. O dinheiro foi usado para construir um prédio de cinco andares, que abrigaria o novo negócio da família.  Não seria apenas um cinema, mas um complexo com hotel, restaurante e salão de festas, verdadeiro ponto de encontro da comunidade. O nome Niterói, até hoje relacionado com a cidade do Rio, na verdade tem origem bem japonesa: a junção entre Nitto (Japão) e herói. Enquanto Yoshikazu cuidava do "Herói do Japão", os irmãos continuavam em Santa Mariana, juntando dinheiro para expandir o cinema. Susumu se lembra bem das inúmeras viagens de caminhão para financiar o empreendimento. E o Niterói começava a mudar a cara da Liberdade.  Qualquer oriental que visitasse a cidade tinha de passar por lá. As sessões começavam logo de manhã e as filas chegavam a dobrar a esquina. O sucesso trouxe astros japoneses aos palcos do Niterói. Quando os heróis da tela grande apareciam, o sucesso era ainda maior. O local também foi o responsável pelo surgimento de várias famílias. "Muitos namoros começaram nos salões do Niterói", lembra Zelinda Tanaka, filha de Susumu. Tamanha procura fez florescerem no bairro outros cinemas especializados em filmes orientais, mas nenhum com o apelo do Niterói. Em 1968, no entanto, o local teve de ser desapropriado para a construção da Ponte Osaka. Era o fim da época de ouro do cinema na Liberdade.  O Niterói se instalou na Avenida Liberdade, onde funcionou até 1988. As portas do empreendimento se fecharam, mas a história ficou. Hoje, em São Paulo, não existem mais salas com programação exclusiva japonesa e, nas telas da cidade, o que se vê é o domínio de Hollywood. Essa produção não agrada muito a Susumu, que hoje quase não vai ao cinema. "Filme japonês é melhor, principalmente os de samurai", diz um dos donos do Niterói, o cinema que mudou a Liberdade.

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