Cineasta defende cota para negros

'EUA estão 20 anos à frente nesta questão'

FLAVIA GUERRA, O Estado de S.Paulo

01 Maio 2012 | 03h04

A pergunta é óbvia, mas merece resposta adequada: de onde surgiu a ideia de filmar um documentário sobre o Brasil? "Inicialmente a ideia era filmar outro país. Mas a gente repensou e, diante do momento que o Brasil está passando, tanta história acontecendo neste momento, primeira mulher presidente, tornando-se uma potência mundial, preparando-se para a Copa, as Olimpíadas... E eu gosto do Brasil. É motivo suficiente, não?", declarou o diretor norte-americano Spike Lee em entrevista ao Estado ontem, em São Paulo, pouco antes de concluir as filmagens da primeira etapa de seu novo documentário: Go, Brasil, Go (Vai, Brasil, Vai).

Em apenas uma semana, o diretor visitou São Paulo, Brasília e Rio, encontrou-se com 30 personalidades e entrevistou boa parte delas - do ex-presidente Lula à presidente Dilma Rousseff, passando pelo ministro do STF Joaquim Barbosa e uma série de artistas e personalidades da cena cultural brasileira, como Caetano Veloso, Criolo, Emanoel Araújo, Frei David, Gilberto Gil, Lázaro Ramos e Zózimo Bulbu, entre outros.

Pelo número de afrodescendentes da lista, muitos deles ativistas pela igualdade racial no Brasil, presume-se que o filme, como é de costume nos trabalhos de Spike Lee, tocará no tema da exclusão social e racial. "Claro que vai falar desta questão. Mas não vai ser sobre isso. Tampouco vai ser um filme da câmara de comércio brasileira. Vai ser equilibrado, ter o lado bom e ruim", afirmou o diretor, que visitou o Supremo Tribunal Federal (STF) no exato dia em que se julgava a legalidade do sistema de cotas raciais nas universidades públicas.

Lee é declaradamente a favor: "Há um erro de avaliação de quem é contra. Não é que vão buscar negros desqualificados na favela para entrar na universidade. Vão pegar os qualificados e aí sim colocá-los na escola", afirmou ele, que acredita que os EUA estão à frente do Brasil quando o assunto é inclusão racial. "Os dois países tiveram escravidão, mas acho que os EUA estão uns 20 anos à frente nesta questão."

Para ele, "descobrir a cor do Brasil" foi uma das grandes surpresas no processo de filmagem. "Já tinha vindo ao País outras vezes. Além da minha primeira visita em 1987, para mostrar meu primeiro filme no Festival do Rio, depois voltei para filmar com Michael Jackson no Morro Dona Marta. E fui descobrindo que o Brasil é também um país negro", contou ele. "Se você é como a maioria dos americanos, que não viaja, que vê o mundo pela TV, vai ligar a TV aqui e achar que este é um país de gente loira de olhos azuis - enquanto os 50% dos brasileiros são negros. Foi a grande surpresa. Este país está descobrindo sua identidade."

Após passar por Brasília e Rio, Lee voltou com sua equipe a São Paulo ontem pela manhã para entrevistar Neymar e Tom Zé, no Museu do Futebol, no Pacaembu. "Estou super animado para conhecer o Neymar. Ele marcou três ontem. Deve estar de ótimo humor", comentou o diretor, que depois receberia uma camisa autografada do jogador.

A equipe, que no Brasil conta com a produção da Paranoid Filmes (de Heitor Dhalia e Tatiana Quintella) e direção de fotografia de Cesar Charlone (de Cidade de Deus), voltou a Nova York ontem e deve retornar em julho para outra etapa de filmagens. "Devemos voltar mais quatro ou cinco vezes. Há muito a descobrir, muitos para entrevistar. Não será um documentário sobre gente famosa falando do Brasil, mas de gente comum também. Queremos lançar antes da Copa do Mundo."

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