Cineastas rejeitam volta da Embrafilme

Fim da estatal quase anulou cinema nacional, mas situação hoje é outra

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

28 Novembro 2009 | 00h00

A extinção da Embrafilme em 1990, no início do governo Collor, provocou uma recessão brava no cinema brasileiro, com a produção caindo a quase zero e assim se mantendo por alguns anos. Essa situação penosa causou a impressão de que havia um luto permanente no meio cinematográfico pela morte da empresa, criada em 1969, durante o governo militar. Engano: sua recriação, nos mesmos moldes daquela época, parece não despertar o menor entusiasmo entre os profissionais de cinema.

Fernando Meirelles (de Cidade de Deus) acha que seria um retrocesso, um verdadeiro andar de caranguejo: "O que não funcionava no modelo da Embrafilme era o fato de toda a verba pública destinada ao cinema estar concentrada nas mãos de uma pequena turma que decidia quais projetos deveriam ser financiados e, portanto, além dos projetos terem a mesma cara ou direção, pertencer à turma era um pré-requisito para se fazer cinema no Brasil", disse.

Meirelles, um dos poucos cineastas patrícios com trânsito no mercado internacional, entende que a vantagem do sistema atual de financiamento é que o dinheiro pode ser buscado em "milhares" de balcões diferentes. Essa multiplicidade de fontes de financiamento seria fiadora da "diversidade do atual cinema brasileiro, com lugar para filmes voltados ao mercado e outros experimentais, além de muitos documentários", analisa.

"SOVIETIZADA"

Orlando Senna, cineasta (Iracema, uma Transa Amazônica, em parceria com Jorge Bodanzky), ex-titular da Secretaria do Audiovisual entre 2003 e 2007 durante a gestão de Gilberto Gil no MinC, pondera que "a única vantagem que a Embrafilme tinha em relação ao sistema atual Ancine/Secretaria do Audiovisual/Renúncia Fiscal era ser também uma distribuidora". Mas é contra a recriação pura e simples da estatal, nos mesmos moldes dos anos 70 e 80. "Retornar a uma empresa centralizada e "sovietizada", voltada apenas para o cinema, como a Embrafilme, seria um retrocesso. O ideal seria uma agência mais abrangente do que a atual Ancine, com poder de regulamentação sobre todo o setor e acoplada a uma distribuidora estatal".

Mesmo o cineasta Roberto Farias (Assalto ao Trem Pagador), que dirigiu a empresa entre os anos 1974-1979, propõe uma forma alternativa, mas não vê possibilidade ou sentido na volta ao passado. "Dificilmente se poderia recriar a Embrafilme tal como era. Talvez seja possível uma espécie de BNDES do cinema, com flexibilidade para estimular, emprestar e associar-se, como alguns de nós defendíamos no fim de minha gestão em 1979, e como era o desejo de Leon Hirszman", diz.

A produtora Mariza Leão, da Morena Filmes (Guerra de Canudos e Meu Nome não É Johnny) crava sua opinião sem qualquer hesitação. "É old fashion, uma proposta antiquada; a Embra morreu." Ela admite que a empresa, em sua época, "foi sensacional, mas não seria agora". Diz que a Embrafilme ajudou a ela e ao marido, o cineasta Sergio Rezende, quando não passavam de dois garotos. Mas hoje o mesmo esquema não teria mais o menor sentido.

Cabe lembrar que a Embrafilme era tanto uma produtora quanto distribuidora de filmes. E, de acordo com os profissionais ouvidos, hoje ela não seria útil nem em um campo e nem em outro. Com exceção de Orlando Senna, todos entendem que a distribuição deve ser privada, não estatal.

Farias diz que nenhuma distribuidora é capaz de dar conta de 60 a 100 filmes por ano, que é a meta brasileira a ser alcançada. E que a incapacidade de dar conta desse volume de lançamentos prejudicaria os que têm menos chances no mercado, os mais frágeis. "Já vi este filme. Os interesses imediatos da empresa e o entusiasmo de seus funcionários se concentrariam inevitavelmente nos filmes comerciais e, como antes, os "difíceis" seriam arremessados no mercado e abandonados à própria sorte."

Mariza emenda: "Para aqueles que imaginam que uma distribuidora estatal possa substituir o legítimo direito de escolha do público, induzindo e/ou impondo filmes, lamento dizer que isso é fantasia pura."

COPRODUTORA

Farias diz que distribuidora tem de ser privada, "trabalhando filme a filme, extraindo do mercado cada centavo do seu potencial". E conta que no final de sua gestão, em 1979, depois de conquistar 40% do mercado, queria privatizar a distribuidora da Embrafilme, mantendo a empresa apenas como coprodutora. "Meu desejo era fomentar quatro ou cinco distribuidoras privadas que, por serem menores, poderiam dedicar-se a todos os filmes de sua carteira, inclusive os médios ou pequenos". A sobrevivência dessas distribuidoras dependeria da resposta de público a esses filmes nas salas de exibição.

Como nada disso foi feito, a Embrafilme se arrastou ao longo dos anos 1980, acabando por ser liquidada, sem um suspiro, no início da era Collor. Se a sua extinção deixou impressão de saudade foi porque, naquela época, nada foi colocado em seu lugar e mesmo uma empresa ultrapassada era melhor do que nada. Hoje a situação é outra.

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