Clássico americano

...E o Vento Levou, de Victor Fleming, completa 70 anos como um dos grandes retratos de um país dividido

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

02 de janeiro de 2010 | 00h00

Um ardoroso fã do clássico ...E o Vento Levou (1939), cuja edição comemorativa de 70 anos está sendo lançada num digibook com cinco DVDs pela Warner, disse certa vez que não recomendaria o filme para: pessoas com aversão a liberdades históricas; cinéfilos que assistem a filmes do passado desejando que reflitam valores do século 21; e, finalmente, espectadores fixados no politicamente correto. Nesse que é um dos mais populares filmes de todos os tempos, a liberdade histórica vira libertinagem, os valores são conservadores, a supremacia racial fica evidente e não há o menor vestígio de trânsito interclassista ou inter-racial. Ainda assim, é um dos melhores retratos dos EUA ? e, mais particularmente, da Guerra Civil, justamente por eleger como representação alegórica da América a figura de uma mulher orgulhosa, voluntariosa e pragmática a ponto de jurar que vai roubar e matar, se for preciso, mas que nunca passará fome. Esta é Scarlett O"Hara, para quem não conhece.

São quase quatro horas só de filme, dividido em duas partes (dois DVDs) e mais três DVDs de extras, que trazem, entre outras atrações, um documentário sobre o ano em que tudo mudou em Hollywood, 1939, narrado pelo ator e diretor inglês Kenneth Branagh. Para começar, foi o ano de ...E o Vento Levou e O Mágico de Oz, ambos dirigidos por Victor Fleming. Para continuar, foi também o ano em que Greta Garbo sorriu pela primeira vez, na comédia Ninotchka. Para acabar, o épico de Fleming, produzido por David O. Selznick, arranjou um concorrente ambicioso no ano, a superprodução Gunga Din, dirigida por George Stevens, imperialista adaptação de Kipling sobre indianos revoltados contra o colonialismo.

...E o Vento Levou não foi projetado como documentário. Não tem, portanto, compromisso com a verdade histórica. É apenas um épico sobre a Guerra Civil americana e sofrimento nas plantações da Geórgia, onde fica Tara, a mansão de um imigrante irlandês, cuja teimosa filha, Scarlett (Vivien Leigh), é caprichosa o bastante para ficar de olho no pretendente de Melanie (Olivia de Havilland), Ashley (Leslie Howard), o primogênito de Twelve Oaks, uma plantação vizinha. É lá que Scarlett vai conhecer Rhett Buttler (Clark Gable), mais realista que seus interlocutores sulistas, com os quais discute a possibilidade de uma guerra civil em que os ianques levariam vantagem por serem donos de fábricas, canhões, estaleiros e minas de carvão.

Franco o suficiente para atrair a antipatia dos sulistas, Buttler prossegue em seu discurso politicamente desagradável aos ouvidos dos latifundiários, para ele um bando de reacionários que disputam em arrogância com seus irmãos do Norte, tendo, no lugar de canhões, campos de algodão e escravos. A desvantagem, segundo Buttler, é evidente. Ele, um aventureiro, não vai ficar para ver o resto da história. Scarlett fica e vê a sua e as propriedades vizinhas serem tomadas pelos soldados do Norte industrializado, que avançam sobre os Estados Confederados, deixando um rastro de destruição e morte na terra dos escravocratas do Sul.

Curiosamente, os dois filmes dirigidos por Victor Fleming em 1939 tratam da volta ao lar de duas garotas entediadas com a rotina da casa. Em O Mágico de Oz, a pequena Dorothy é levada por um tornado, que destrói sua casa, e vai parar na terra de um feiticeiro. Em ...E o Vento Levou, a mimada Scarlett enfrenta o rito de passagem ao ver Twelve Oaks, a plantação vizinha, incendiada e, mais adiante, sua querida mansão Tara arruinada e saqueada pelos ianques. Dorothy volta ao lar abdicando do mundo da fantasia e aceitando a realidade, assim como Scarlett, que, empunhando o último rabanete da Geórgia, anuncia a segunda parte do filme, jurando que fará o diabo para sobreviver, nem que tenha de matar, roubar, esfolar ou se humilhar. Essa é a verdadeira América.

Não sem razão, a última fala de Rhett Buttler no filme é "Frankly, my dear, I don"t give a damn" ("Francamente minha querida, não dou a mínima", numa tradução para lá amenizada). Pelo palavrão "damn", o produtor Selznick teria desembolsado US$ 5 mil para calar a boca dos burocratas do Código Hays (Censura americana) ? no documentário que acompanha o filme, The Making of a Legend, essa versão é contestada; uma emenda do código de produção aprovado pela Motion Picture Association toleraria as palavras hell (inferno) e "damn" (maldição, ou dane-se), desde que num contexto histórico apropriado.

Bem, não existiria contexto mais apropriado que o da Geórgia na Guerra Civil americana. Nem mesmo depois dela. Basta dizer que a atriz Hattie McDaniel, primeira afro-americana a ser indicada para o Oscar, não pôde comparecer à estreia do filme, em 1939, em Atlanta. Ainda estava em vigor leis racistas que impediram a Mammy, empregada de Scarlett O"Hara, de testemunhar, em 15 de dezembro de 1939, os três dias de festas da estreia na Geórgia com tudo o que uma superprodução tinha direito, da limusines a bandeiras dos confederados. O Sul perdera a guerra, mas não a pose.

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