Royal Theatre
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Clássico de André Gide, 'O Imoralista' ganha nova edição no Brasil

Romance explora relações entre juventude e puritanismo, saúde e saber, corpo doentio e saudável

Silviano Santiago*, O Estado de S.Paulo

15 Setembro 2018 | 16h00

Friedrich Nietzsche, na filosofia alemã, e André Gide, na literatura francesa, são os dois primeiros autores a se autodenominar imoralistas. No livro O Crepúsculo dos Ídolos, em entrada intitulada Fala o Imoralista, Nietzsche afirma: “A história dos desejos tem sido até agora a parte vergonhosa do homem”. Ao se autoproclamar publicamente, a identidade rebelde se propõe ao convencimento do outro por atitude imperiosa e transgressora em face dos valores morais dominantes em sociedades de tradição greco-romana e cristã. Visa também à inevitabilidade de nova e próxima batalha contra os princípios que reafirmam o controle da conduta humana pela norma coletiva. O individualismo rebelde contraria a polêmica política de rebanho. Enxerga-a como passageira ou definitiva forma de cansaço da regra democrática. Daí o recurso ao nome próprio como indispensável motor revolucionário.

Lembre-se da advertência do marxista Theodor Adorno em Minima Moralia: “Ao longo desses 150 anos que passaram desde o aparecimento do pensamento hegeliano, é ao indivíduo que coube uma boa parte do potencial de protesto”. 

A dupla abertura oferecida ao leitor brasileiro pelas reflexões de Nietzsche em O Crespúsculo dos Ídolos (1889), e de Gide na prosa de O Imoralista (1902), agora em nova edição em português, desregulamenta o modelo de comportamento moral do homem, conscrito e restrito pelas virtudes greco-latinas e cristãs. Em contrapartida ao infindável domínio da estabilidade apolínea nas sociedades pequeno-burguesas, o pensamento libertário de Nietzsche e a prosa confessional de Gide estimulam o retorno aos valores dionisíacos, orgíacos por natureza.

À serenidade apolínea do burguês se contrapõe o movimento dionisíaco do artista, que anuncia a liberdade que desautoriza os valores normativos na invenção do novo homem. Por ser singular e com vistas ao coletivo, a instabilidade orgíaca visa a traduzir o pedido de revanche do páthos (qualidade do que é nitidamente emocional e transiente) ao vitorioso êthos (autocontrole racional sobre paixões, inclinações e afetos desordenados). Emprestamos novo conteúdo à leitura que o historiador Aby Warburg faz da originalidade criativa da arte renascentista na sua relação ao despotismo do modelo clássico greco-latino que a inspira.

Para retomar Nietzsche, leitor de Schopenhauer, acrescento que, na imoralidade de O Imoralista de André Gide, está em jogo a busca da beleza humana que reside na negação da função reprodutora da espécie para acentuar o saber que ata a especulação estética ao prazer sensual que a obra de arte oferece ao leitor. É como se de repente o romancista, para apreciar voluptuosamente os belíssimos trabalhos que representam o nu frontal, retirasse da estatuária as folhas de parreira e da pintura a pudicas mãos de Vênus. Estatelam-se as ditas partes vergonhosas do corpo humano. Ainda com Nietzsche, continuo a leitura do imoralismo gidiano: “a cultura e a literatura mais elevadas da França clássica floresceram em sua totalidade sobre o solo do interesse sexual”.

A Origem do Mundo − o “imoral” quadro de Courbet de 1886 – é na verdade um close-up que tem o mesmo lugar e a mesma data de nascimento dos imoralistas em análise. Diante do nu frontal masculino ou feminino, os historiadores anglo-saxões da arte, informados direta ou indiretamente pelo puritanismo protestante, apenas trocam folhas de parreira e mãos venusianas pela proposta de atitude pudica por parte do espectador. É preciso que guarde “distância estética” da Vênus de Botticelli. No momento glorioso da apreciação, abre-se espaço neutro (?) entre a nudez do corpo exposto e a sensualidade do espectador.

Para repreender o puritanismo que o formata na província francesa e ainda o puritanismo do seu leitor é que André Gide, ao final do evangelho homoerótico que é o livro Os Frutos da Terra (1897), aconselha: “Quando me tiveres lido, joga fora este livro – e sai. Gostaria que te tivesse dado o desejo de sair – sair do que quer que seja e de onde que esteja, de tua cidade, de tua família, de teu quarto, de teu pensamento. Não leves meu livro contigo”.

Ao se debater contra a “formação” que castra, o imoralismo gidiano vivifica a força rebelde do nome próprio singular. Põe em questão o sujeito, “o quem?” − e não “o quê?”. Tonifica as necessidades plurais do corpo masculino, seus sentimentos e afetos, com vistas à “construção” do que seja o humano, demasiadamente humano. Talvez não seja por outro motivo que o romancista Julio Cortázar, autor do conto As Babas do Diabo, inspirador do Blow Up de Antonioni, seja o tradutor de O Imoralista ao castelhano. Todos esses artistas estão comprometidos com a escrita da experiência de vida em primeira pessoa (no caso do conto de Cortázar, os olhos do artista são atualizados pelo recurso à imagem dada pela câmara fotográfica). Daí advém a opção de Nietzsche e de Gide por escrita singular. Em plena vigência da dialética hegeliana, o estilo de Nietzsche é epigramático e profético. Em repúdio à estética realista-naturalista de Émile Zola, o de Gide é confessional e moralista.

Não é outro o motivo para que, nos anos 1960, se cunhe a expressão híbrida “autoficção”. Ela configura um florescente gênero de prosa literária que enxerta algo e muito da autobiografia na prosa literária de tronco francês. Nos dias de hoje, O Imoralista é autoficção. A experiência de vida do autor ampara a urgência de o narrador em primeira pessoa expressar a verdade poética.

Que o leitor de André Gide, que se apoiar unicamente no argumento estético, se previna contra ciladas. A trama de O Imoralista repousa nas misteriosas relações entre juventude e puritanismo, saber e qualidade de vida, saúde e saber. Entre corpo doentio e corpo saudável. Entre corpo e alegria. Como no caso do companheiro Nietzsche, a escrita de Gide, e também a leitura de seus livros, tem finalidade terapêutica. Escreve Nietzsche em Humano, Demasiadamente Humano: “Um passo adiante na convalescença: e o espírito livre se aproxima novamente à vida, lentamente, sem dúvida, e relutante, seu tanto desconfiado”.

Numa compreensão atual da história das ideias no Ocidente, Nietzsche e Gide são os principais mentores da notável contribuição de Michel Foucault ao pensamento ocidental. Depois da série de trabalhos sobre “saber e poder”, dedica-se ele ao estudo dos “modos de subjetivação”. Leiam-se as magníficas aulas que nos anos de 1980/1 oferece no Collège de France, reunidas sob o título de Subjetividade e Verdade. Foucault retoma dos gregos o tópico negligenciado das “técnicas de si”. Elas resumem os procedimentos presumidos ou prescritos aos indivíduos para fixar a identidade, para mantê-la ou transformá-la graças a relações de domínio de si sobre si ou de conhecimento de si por si.

Ao recolocar o imperativo socrático sob a perspectiva dos tempos de moral vitoriana, Foucault deixa claro que a autoproclamação do nome próprio rebelde – Nietzsche ou Gide – como portador da verdade não é crítica estreita à ideologia de rebanho nem elogio do tipo humano excepcional. Somos todos democráticos e excepcionais. Basta que cada um, com a intenção de reformatar os impulsos que herda e conduzem ao sofrimento, assuma o domínio de si sobre si mesmo na busca da identidade. A história da sexualidade de Foucault começa pela “vontade de saber”. Leia-se O Imoralista ao mesmo tempo que Os Frutos da Terra. A prosa literária é referendada pelo evangelho da cura, que instiga o leitor já bem instruído a jogar fora o livro e, ao ar livre da liberdade, ganhar o domínio de si sobre si mesmo.

O vocabulário da saúde está presente em O Crepúsculo dos Ídolos. Cite-se: “Este homem jovem empalidece e murcha precocemente. Seus amigos dizem: tal ou tal doença é a causa. Eu digo: o fato de ele ter adoecido, o fato de ele não ter se oposto à doença, foi justamente o efeito de uma vida empobrecida, de uma extenuação hereditária”. O Imoralista é escrito com o mesmo vocabulário da saúde e em confronto aberto com a vida empobrecida e a extenuação hereditária.

Recém-casado com Marceline, o jovem historiador Michel parte com a esposa em viagem de núpcias ao norte da África. Marceline se casa em obediência ao pedido do pai. O marido é historiador e vem de meio puritano, típico da pequena-burguesia provinciana. O desenlace é evidente no enlace. Em viagem pela Tunísia, Michel acaba por ter sua primeira experiência homoerótica com garotos árabes. Rompe definitivamente com o puritanismo que lhe fora inculcado.

De natureza frágil, Michel é tomado por violentas expectorações de sangue. Tuberculoso, oscila entre vida e morte. Descobre que tem negligenciado o corpo em favor dos estudos. Entrega-se ao processo de negação da vida espiritual em proveito da vida ao ar livre e em contato com a natureza selvagem. Obriga-se a se alimentar. Ao recobrar a saúde, descobre a sensualidade reprimida. A sensibilidade à flor da pele do convalescente é explosiva. Vive “perigosamente”, não esconde o narrador. 

O casal está de volta à França. Passa uma temporada em La Morinière, chácara na região normanda. A aridez salutar da África tem contraponto na fertilidade do campo francês. Surge uma inversão no protagonismo. A saudável Marceline adoece. Sofre embolia pulmonar. Marido convalescente e esposa enferma se dão as mãos na necessidade de repouso. Distantes até então do sexo, os dois corpos se preparam para o reencontro imprevisível no amor. O enlace afetivo dos corpos não se passa no plano elevado do espírito. Não se sublima. Tampouco se dá na união de corpos enamorados, como experiência sexual efetiva.

O enlace é experiência física solitária, sensível e íntima. Ao se eleger dois corações como lugar do desempenho, esclarece-se que o enlace dos corpos é afeto. O sentimento humano é puro e profundo. Leio um trecho em que se explicita a força da convalescença que aproxima marido e esposa e os aconchega. Escreve Michel: “aquela espécie de simpatia física que, por ocasião da embolia, me levara a sentir em mim as terríveis palpitações do coração de Marceline me cansara como se eu mesmo estivesse enfermo”. Ao renascer na chácara normanda, a angústia do marido se faz acompanhar do sofrimento da esposa. Michel e Marceline ganham o afeto desde que brota a “simpatia física”. 

A simpatia física sentida por Michel lhe entra pelos olhos para logo lhe ganhar a corrente sanguínea e encharcar o corpo. Desliza pelas veias até o coração e, lá, se expande e se confunde com o corpo de Marceline. Ao ganhar o coração dela se manifesta por apalpadelas (‘attouchements’). Por bolinagem de coração em coração. O precário relacionamento sentimental se transforma em sentimento humanamente profundo. A simpatia física ganha sentido e soberania no relacionamento libidinoso do marido já sadio com a esposa convalescente.

Páginas adiante, o romance volta a trabalhar a simpatia física. O contexto é inesperado e transgressor. Recuperada, Marceline transmite tranquilidade. É devolvida à vida social com os familiares e as velhas amigas. Michel sai pela chácara e se envolve com vários grupos de trabalhadores. A “má curiosidade” rouba-lhe o tempo ou o enriquece. Depende. A existência de cada um dos camponeses lhe parece misteriosa. A todos e a qualquer Michel empresta segredo que ele, a todo custo, deseja conhecer. Vagabundeia, faz companhia, espia. Nunca interroga. Escuta as piadas alheias e supervisiona menos o trabalho e mais os prazeres.

Quer vê-los nos momentos de brincadeira. Sabe que sente prazer, mas ainda não tem acesso ao motivo do desassossego feliz. O contínuo deslumbramento lhe vem da mera percepção da cambada de trabalhadores do campo? Tem dificuldade em exprimir a espécie de alegria que experimenta quando está “entre” eles e “com” eles. Imediatamente se autocorrige: a alegria que sente profundamente “através” deles. 

Uma cena inesperada torna Michel consciente da própria sensualidade. A narrativa retoma a descrição do afeto que o marido nutre pela esposa. Michel escreve que está a viver − copio − “uma espécie de simpatia, semelhante à que fazia palpitar o meu coração junto com o de Marceline”. Trata-se, continua ele, de eco de cada sensação alheia, algo que não é vago, mas agudo e preciso. O relato se prepara para expor a perturbadora cena fatal. O protagonista remodela a vida por ele vivida em falso até então.

Michel isola o ceifeiro do grupo de camponeses e o repara. O jovem trabalha com a foice. Michel sente em seus braços a curva do corpo do ceifeiro. Está cansado do cansaço alheio. O gole de cidra que o ceifeiro bebe sacia a sede de Michel. Sente o líquido deslizar pela garganta. Um dia, ao amolar a foice, um dos camponeses corta profundamente o polegar. Michel sente sua dor, até a medula. Em O Imoralista, a “simpatia física” é o modo de o corpo se aconchegar no corpo alheio que lhe seduz pelo conhecimento e pelo apuro gradativo da própria sensibilidade curiosa, solitária, carente e afetuosa.

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