Coadjuvantes do emagrecimento

É crescente o uso de remédios à base de plantas para a perda de peso, mas sua eficácia não é comprovada

Ciça Vallerio,

26 de fevereiro de 2011 | 16h00

 

Associados a uma dieta equilibrada e a atividades físicas, alguns fitoterápicos prometem dar um empurrãozinho extra aos programas de emagrecimento. Entre esses compostos naturais, estão os termogênicos, conhecidos como "queimadores de gordura". Há, ainda, os anorexígenos, anunciados como moderadores naturais de apetite, além dos que garantem diminuir a absorção de gordura. Mas esse é um tema cercado de polêmica e controvérsia.

 

Como todo mundo vive em busca de mágicas, tais componentes podem ser vistos como salvadores da pátria e, assim, muitos passam a tomá-los sem orientação médica. O que é um sério problema. A nutricionista Priscila Machado, que tem especialização no Instituto Brasileiro de Plantas Medicinais, lembra que os fitoterápicos não são inócuos. "São plantas com mecanismos de ação similares aos de muitos medicamentos sintéticos, razão pela qual não deixam de ser drogas e de causarem efeitos colaterais."

 

Apesar de serem vendidos livremente em pontos de produtos naturais e até farmácias, os fitoterápicos só devem ser prescritos por especialistas. Mesmo assim, não há garantia de efeitos milagrosos. "Não existem estudos científicos em número suficiente e com metodologia adequada que comprovem a eficácia desses princípios ativos extraídos de plantas", diz o endocrinologista e nutrólogo Wilmar Jorge Accursio.

 

É a mesma opinião do nutrólogo Durval Ribas Filho, que preside a Associação Brasileira de Nutrologia (Abran). Para ele, embora haja uma carência de pesquisas, o efeito dos fitoterápicos é endossado, muitas vezes, a partir das vivências relatadas por especialistas. A preocupação com seu consumo é tamanha que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a propaganda de fitoterápicos por meio da resolução 1.992, de 3 de maio de 2010.

 

"Falar sobre esses produtos não é fazer propaganda, mas sim uma maneira de alertar para os riscos de seu uso sem acompanhamento médico", endossa Ribas Filho. Embora médicos e especialistas como Priscila, Ribas Filho e Accursio lancem mão de fitoterápicos, eles os prescrevem com parcimônia, porque existem várias contraindicações.

Segundo Priscila, que também é professora de bioquímica médica da Fundação de Apoio e Pesquisa e Estudos de Saúde, alguns fitoterápicos não devem ser consumidos por mais de 60 dias. O koubo, por exemplo, extraído do cacto cereus, não é indicado para diabéticos. Acredita-se que esse produto atue no metabolismo, estimulando a transformação do glicogênio em glicose - o que, consequentemente, aumenta a liberação de insulina, avisa Priscila. Segundo Ribas Filho, os termogênicos, como citrus e pholiamagra, aceleram o metabolismo e não devem ser consumidos por quem tem hipertensão e arritmia cardíaca, já que podem acentuar esses problemas.

 

Sem milagres

 

O endocrinologista Accursio explica que os fitoterápicos, de um modo geral, podem ajudar no tratamento da obesidade. Entrariam como complementação de dietas de pacientes que não querem tomar remédios sintéticos ou daqueles que já tomam outras medicações controladas, sobretudo as que agem no cérebro e são prescritas por psiquiatras.

 

"No entanto, temos de tomar bastante cuidado, porque muitos não funcionam e os que funcionam têm somente 20% da potência dos moderadores de apetite de tarja preta ", observa Accursio. E se alguém disser que perdeu muito peso com um termogênico fitoterápico é porque fez uma dieta adequada, reforça o médico.

Para o nutrólogo Ribas Filho, os fitoterápicos atuam quase como um placebo quando são utilizados sozinhos em programas de emagrecimento para combater a obesidade. Ou seja, não fazem efeito algum. Isso não impede, porém, que entrem como coadjuvantes na luta contra a balança. Principalmente para as pessoas que apresentam dificuldades para queimar calorias ou gordura.

Essa opinião não é regra entre os profissionais. A especialista em plantas medicinais Priscila Machado aposta todas as fichas nas plantas. Ela destaca, contudo, que não adianta recorrer aos compostos naturais e continuar com os maus hábitos, se entupindo de "tranqueiras". "O importante é a mudança no estilo de vida", ressalta.

 

Substâncias na mira da Anvisa

 

Apesar da atual polêmica entre a indústria farmacêutica e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) - que quer proibir a comercialização de remédios à base de substâncias como dietilpropiona e sibutramina no tratamento da obesidade - os fitoterápicos não foram esquecidos. A agência confirmou que há muitos pedidos de registros de medicamentos de origem natural com alegações terapêuticas de emagrecimento. Mas a maioria é indeferida por falta de comprovação científica com relação à segurança e à eficácia, caso da caralluma.

Nenhum dos fitoterápicos citados nesta reportagem têm registro da Anvisa. Além disso, o órgão suspendeu a venda, em todo o território nacional, do suplemento quitosana, por conter a sibutramina (redutor de apetite sintético que pode causar enfarte e derrame). Recentemente, o único medicamento que conseguiu registro na Anvisa foi o extrato vegetal garcinia camboja, mas a venda só pode ser feita mediante apresentação de receita médica.

 

 

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