Coisas que eu queria saber aos 21

O futuro de nós do interior que morávamos em São Paulo se resumia a uma tríplice escolha: Advocacia, Engenharia ou Medicina. Eu morava em pensão, trabalhava num banco até as 18h30 e ia para o Colégio Roosevelt até meia-noite. Escolher o quê? O ITA e a Politécnica eram inatingíveis para alunos pobres e deficientes em física e matemática. Medicina também complicava, pois encarava-se química e biologia. Restou o Direito.

, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2011 | 00h00

Um colega sugeriu que eu fizesse teste vocacional no Instituto de Organização Racional do Trabalho. E lá fui eu correndo me submeter aos testes. Minhas opções seriam Direito, Medicina, Engenharia e a carreira militar. Para quem trabalhava desde os 12 morando em pensões de aluguel barato, o quartel com tudo pago, estabilidade, era atração irresistível. E a farda! Eu, cadete de Agulhas Negras, com farda de gala num Baile da Literária em São Roque provocaria desmaios em cadeia nas ex-colegas de escola, que à paisana sequer me olhavam.

Duas semanas de testes e a espera pelo resultado: não deveria tentar Engenharia ou Medicina, por apresentar dificuldades de raciocínio no campo espacial... Campo espacial? Até hoje não sei do que se trata. Devia fazer Direito. Academia Militar, não! Pelas dificuldades com disciplinas rígidas. E deveria fazer teatro! Para desenvolver a capacidade oral e necessidade compulsiva de comunicação e escapar dos "lugares comuns e estereótipos banais sob os quais me escondia..".

Como minha confusão era absoluta, aceitei todas as sugestões. Me matriculei no famoso Cursinho do Castelões da Rua Direita. Um belo dia vi um anúncio de testes para atores. Encontrei numa livraria um Henrique IV, de Pirandello, traduzi um trecho e lá fui. Fiz o teste e me despedi certo de que ali se encerrava minha carreira de ator. Três semanas depois, recebo um aviso: "Comparecer ao Colégio Porto Seguro para início dos ensaios da peça A Via Sacra, de Henri Gheon." Antes da estreia, entrei nas Arcadas, e fiz a peça careca, graças ao trote. Todos gostaram, eu amei. Ingressei na EAD e tranquei a matrícula na São Francisco. E aqui estou, há 51 anos. Se o teste deu certo, quem deve dizer é o público, a quem devo toda a minha vida."

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