Cólera no Haiti é parte de pandemia antiga, dizem especialistas

A epidemia de cólera que já matou mais de mil pessoas no Haiti é parte de uma pandemia iniciada há 49 anos, que provavelmente chegou ao país caribenho por causa de uma só pessoa contaminada, disseram cientistas na quinta-feira.

MAGGIE FOX, REUTERS

18 de novembro de 2010 | 17h07

A epidemia no Haiti ainda pode se agravar facilmente, apesar dos esforços para controlá-la, disseram o Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).

Muitos haitianos culpam soldados da Organização das Nações Unidas (ONU) pela epidemia, e houve distúrbios contra os militares estrangeiros na cidade de Cap-Haitien, o que prejudicou o combate à doença por lá.

Essa enfermidade bacteriana é transmitida por água e alimentos contaminados, e pode matar por diarreia em questão de horas se não houver tratamento.

O Haiti passou um século sem ter casos da doença, mas especialistas dizem que o país é propício à sua proliferação -- pela falta de saneamento básico, grande aglomeração humana, chuvas torrenciais e falta de acesso à água tratada.

Exames genéticos mostram que as bactérias presentes em muitas amostras são quase idênticas entre si, o que sugere a ideia de uma só origem para a epidemia, segundo o CDC e a Opas.

A cepa presente no Haiti é muito semelhante à que circula no sul da Ásia, o que gerou a suspeita de que soldados nepaleses tivessem levado a doença, algo que a ONU nega.

Os técnicos do CDC disseram que a atual pandemia de cólera, da qual o Haiti é a mais recente vítima, "começou 49 anos atrás em Sulawesi, na Indonésia, e durou mais e se espalhou mais longe do que qualquer pandemia de cólera anteriormente conhecida."

Entre os primeiros pacientes no Haiti, a maioria trabalhava em arrozais inundados na província de Artibonite. Sanitaristas entrevistaram 27 pacientes, e o relatório do CDC informa que a maioria bebeu água não tratada do rio Artibonite ou dos canais, e que 78 por cento haviam defecado a céu aberto.

Até o começo deste ano, só 12 por cento da população do Haiti tinha água encanada, e 17 por cento tinham saneamento básico, disseram o CDC e a Opas. Depois do terremoto de 12 de janeiro, que matou até 250 mil pessoas e deixou mais de 1,5 milhão de desabrigados, a situação piorou.

"O rumo da epidemia de cólera no Haiti é difícil de prever", concluíram os pesquisadores. "A população haitiana não tem imunidade pré-existente ao cólera, e as condições ambientais no Haiti são favoráveis à sua contínua difusão."

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), houve em 2009 um total de 221.226 casos confirmados de cólera no mundo, com 4.946 mortes, em 45 países. Mas há suspeitas de que o número real seja bem superior. A epidemia haitiana já provocou 1.110 mortes.

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