Com água pelos joelhos

Diante das atribulações dos moradores do Jardim Pantanal, que desde a última enchente vivem literalmente mergulhados na água podre do Rio Tietê, o prefeito Gilberto Kassab anunciou a antecipação da construção do Parque Várzeas do Tietê. O que será o maior parque linear do mundo foi projetado para funcionar como regulador de enchentes e impedir que os detritos produzidos pela população estabelecida irregularmente às margens do rio cheguem ao seu leito e acelerem sua degradação.

, O Estadao de S.Paulo

20 Dezembro 2009 | 00h00

O investimento será de R$ 1,7 bilhão. As obras, previstas para começar em 2012, começarão, agora, no primeiro semestre de 2010. O primeiro passo será a remoção das famílias de nove bairros do Jardim Pantanal. Estima-se, hoje, um custo de R$ 300 milhões apenas para a construção de novas moradias.

A área começou a ser ocupada há mais de 20 anos e os governos municipal e estadual nunca se preocuparam com a multiplicação das invasões e dos lagos ali existentes. Em junho de 2007, o Jornal da Tarde revelou a crescente ocupação daquela Área de Proteção Ambiental (APA). Na época, pelo menos 10 mil pessoas haviam erguido seus barracos onde pouco tempo antes as lagoas armazenavam as águas das chuvas e dos transbordamentos do Tietê.

Grileiros passaram a lotear essas bacias naturais em conjunto com empresas de transporte de entulhos que, ao preço de R$ 20 a R$ 50 por caminhão, aterravam as lagoas. E nos aterros, lotes de 120 metros quadrados eram demarcados e vendidos a R$ 1 mil para os moradores.

Dois anos após a reportagem do Jornal da Tarde, é notável o aumento da população local e, em consequência, das agressões ao meio ambiente. O trabalho realizado pelo governo do Estado para ampliar e aprofundar a calha do Tietê foi anulado, em boa parte, por esse tipo de ocupação irregular. Somente na região do Jardim Pantanal moram cerca de 60 mil pessoas que se sujeitam a passar semanas, todos os anos, com as casas invadidas pela água e pela lama.

O governador José Serra pediu ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) maior rapidez na liberação dos recursos para que as obras no local sejam iniciadas nas próximas semanas. O projeto será conduzido pelas Secretarias Municipal de Habitação e Estadual de Saneamento e Energia.

A área de recomposição da mata ciliar no Parque Várzeas do Tietê será equivalente a 380 campos de futebol (3,8 milhões de metros quadrados). Além do adensamento da vegetação, que começa agora com o plantio de 63 mil mudas de árvores, serão construídos 33 núcleos com equipamentos de esporte e lazer - 77 campos de futebol e 129 quadras esportivas - para o atendimento dos moradores de cidades da Bacia do Alto Tietê: São Paulo, Guarulhos, Itaquaquecetuba, Poá, Suzano, Mogi das Cruzes, Biritiba-Mirim e Salesópolis.

Segundo o prefeito Gilberto Kassab, entre 3,5 mil e 7,5 mil famílias estão sendo cadastradas na região do Jardim Pantanal. Elas serão inicialmente atendidas pelo programa de apoio Bolsa-Aluguel até que as moradias fixas sejam construídas em área regularizada próximo dali. As áreas disponíveis para o reassentamento dos moradores estão sendo identificadas.

Casas novas para a população carente em curto prazo, o maior parque linear do mundo para melhorar o entorno ambiental e garantias de redução das enchentes são as respostas positivas esperadas pela população, diante da indignação geral pós-enchentes.

Mas é difícil acreditar em mais essa promessa quando se assiste à entrevista concedida pelo subprefeito da região, Milton Persoli, ao telejornal SP TV, da Rede Globo, na terça-feira, um dia depois do anúncio da antecipação das obras do Parque Várzeas do Tietê. Persoli "fez graça" com a situação dos moradores que continuavam, uma semana depois das chuvas, sofrendo com a lama e o derrame de esgoto no local. "Já conversamos com São Pedro e com o Papai Noel. Não vai chover mais", afirmou o funcionário - que errou na previsão, mas continua firme em seu cargo.

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