Com Francisco, Igreja Católica muda centro de gravidade

Ascensão de papa argentino marca mudança definitiva de curso do catolicismo romano rumo à América Latina e ao mundo em desenvolvimento

E.J. , DIONNE JR., THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2013 | 04h19

Artigo

Jorge Mario Bergoglio desafiou a sabedoria dos vaticanistas ao ser eleito papa. Se bem que eles deveriam tê-lo notado antes. Sua ascensão marca uma mudança definitiva de curso do catolicismo romano rumo à América Latina e ao mundo em desenvolvimento. Em termos teológicos, ele representa a continuidade, mas é o primeiro papa não europeu em mais de mil anos, e também o primeiro jesuíta.

Ele é um conservador da doutrina, que foi contra a legalização do casamento gay na Argentina e criticou colegas jesuítas que se mostraram mais liberais. Por outro lado, criticou padres que se negaram a batizar crianças nascidas fora do casamento e trabalhou em favor da justiça social. Ele é o primeiro papa a adotar o nome de um santo conhecido por sua devoção à humildade e aos pobres. E provavelmente dará atenção especial às regiões mais pobres do globo.

O fato de sua eleição ter sido uma surpresa é surpreendente. Em 2005, foi amplamente noticiado que ele ficou em segundo no conclave que elegeu Joseph Ratzinger como papa Bento XVI. John Allen, o correspondente do National Catholic Reporter em Roma, citou um prelado que disse que Bergoglio tinha colocado Ratzinger em uma disputa apertada pelo pontificado.

A base de apoio de Bergoglio permaneceu intacta nos oito anos seguintes, e um membro da Igreja disse que o argentino recebeu cerca de 30 votos na primeira votação deste conclave, na terça-feira, o que o colocou em posição privilegiada para conquistar os 77 votos necessários - de um total de 115 - em apenas quatro votações a mais.

Nos dias que antecederam o conclave, porém, ele mal aparecia na lista de prováveis escolhidos, em parte por causa de sua idade (76 anos), em parte porque alguns cardeais duvidavam se ele teria mão firme o suficiente para assumir o comando de uma Cúria com grande necessidade de reformas. Essa capacidade, agora, será testada na prática.

Católicos americanos mais liberais, que desejam mudanças nas posições da Igreja sobre o papel das mulheres e sobre sexualidade, por exemplo, não devem esperar muito do papa Francisco. Ele é um tradicionalista, ainda que o mesmo pudesse ser dito de todos os outros potenciais vencedores. Francisco foi um crítico precoce da teologia liberal, que uniu católicos e movimentos de esquerda na América Latina.

Ainda assim, um bispo americano ressaltou que a escolha de Bergoglio também não seria recebida como uma vitória clara dos conservadores. Em assuntos de liturgia, ele se opõe àqueles que querem reverter mudanças instituídas pelo Concílio Vaticano II.

O bispo também chamou atenção para o fato de que, já em seu primeiro discurso para a multidão reunida na Praça São Pedro, Francisco enfatizou seu papel como "bispo de Roma", em vez de enfatizar seu papel como líder da Igreja. Segundo o bispo, isso pode ser uma indicação de que Francisco simpatiza com a posição de alguns setores da Igreja que acham que o poder do Vaticano deve ser descentralizado.

O resultado do conclave também sinaliza um afastamento dos cardeais com ligações mais próximas com a Cúria - como a burocracia do Vaticano é conhecida - e com o candidato favorito italiano, cardeal Angelo Scola, de Milão.

No fim das contas, a posição de Francisco como latino-americano e defensor do pobres pode ser o que mais o defina como papa.

Sua ligação com a Argentina não é livre de ambiguidades. Ele foi criticado diversas vezes por não ter assumido uma posição mais crítica perante a ditadura brutal que governou a Argentina entre 1976 e 1983. Mas ele difere de outros líderes da Igreja latina no passado, que se aliaram a governos ditatoriais em troca de privilégios próprios.

Bergoglio abriu mão de viver na mansão episcopal em favor de um pequeno apartamento, e sempre usou transporte público em vez de carro. Trabalhou nas favelas argentinas e pediu a seus padres que fizessem o mesmo. Chamou atenção para as limitações do capitalismo desregulamentado, assim como do Fundo Monetário Internacional.

Para muitos católicos, a escolha do nome Francisco é motivo de grande esperança, pois se trata do santo que desdenhava da autoridade formal, dedicava-se a viver uma vida simples, cuidava com amor dos marginalizados e dava mais valor a ações do que a discursos.

Dizem que São Francisco uma vez afirmou: "Preguem o Evangelho sempre. Se necessário, usem palavras". Uma estratégia desafiadora para um papa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.