Com leucemia, jovem faz prova no hospital

Flávio Santiago, de 17 anos, veio de Aracaju para ser tratado em São Paulo por pelo menos 2 anos

OCIMARA BALMANT, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2012 | 02h06

Uma hora antes de a prova de ontem começar, Flávio Santiago, de 17 anos, estava com o fone de ouvido no volume alto: curtia o som da banda de heavy metal Slipknot. Mas a intenção não era exatamente relaxar. O adolescente queria mesmo era fugir do som ambiente, dominado pelo choro de crianças e pela conversa de mães ansiosas.

"Assim, eu tento escapar um pouquinho dessa realidade", diz ele, com sorriso tímido. O cenário, logo se percebe, não era a porta de nenhum colégio, mas o segundo andar do prédio que abriga o Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graac), em São Paulo.

Foi ali, em uma sala especial e com uma pessoa enviada exclusivamente para lhe aplicar o exame, que Flávio respondeu às 90 questões do dia, 45 de Ciências Humanas e outras 45 de Ciências da Natureza. O jovem levou quatro horas para resolver os testes, exatamente o intervalo entre a sessão de antibiótico no soro que havia tomado pela manhã e a outra que ainda tomaria à noite.

A dosagem alta do medicamento é apenas um dos componentes do tratamento contra uma leucemia diagnosticada há pouco mais de um mês e que mudou toda a rotina desse estudante sergipano, morador de Aracaju.

Tudo começou no final de agosto, em um passeio no parque com a família. Durante uma volta de bicicleta, Flávio se sentiu fraco, empalideceu e desmaiou. A primeira suspeita foi de um problema de garganta. Sem sucesso no tratamento, a investigação prosseguiu para exames detalhados de sangue que mostraram uma dosagem extremamente baixa de plaquetas e hemoglobina.

Da desconfiança à certeza do câncer foram mais alguns dias de angústia e de queda acentuada de sua imunidade. Após a transfusão de emergência de seis bolsas de sangue e três de plaquetas, a família toda - pai, mãe e irmã - viajou a São Paulo em um voo emergencial e, desde o dia 2 de outubro, o Graac se tornou a nova casa de Flávio.

No início muito debilitado com as sessões de quimioterapia, ele, que gosta tanto de estudar e que durante todo o ano fez simulados preparatórios na escola em que cursava o terceiro ano do ensino médio, nem se lembrou do Enem e do sonho de ser astrônomo. Mas a boa resposta do corpo à quimioterapia e a afirmação dos médicos de que o tratamento deve levar aproximadamente dois anos fizeram com que ele se adequasse às novas condições.

Em vez dos seus professores de Aracaju, ele recebeu o apoio de outros, que trabalham no Graac. No lugar de tentar uma vaga em Física na Universidade Federal do Sergipe (UFS) e depois se especializar em Astronomia, ele vai buscar a aprovação em uma instituição paulista, quem sabe até a Universidade de São Paulo (USP), que tem a graduação em Astronomia.

Se depender da prova de ontem, Flávio está otimista. Achou as questões mais simples do que esperava - com poucas fórmulas e muita interpretação de texto. Na avaliação de hoje, a torcida é para que a redação cobre um tema que ele domine. Enquanto espera, ele coloca um rock para espantar o barulho ambiente do hospital e estica o braço para outra dose de drogas.

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