Com os freios falhando

Enquanto o governo tropeça e os políticos abusam da crise, a inflação avança para 10% em 2015 e já cresce o temor de um resultado acima de 6,5% no próximo ano. Se isso ocorrer, mais uma vez será rompido o limite de tolerância, impropriamente chamado teto da meta. Mas o estouro será apenas sinal de um desarranjo muito mais grave. O cenário de alto desemprego, negócios emperrados e contas públicas arrebentadas ainda estará presente – e os freios da alta de preços terão parado de funcionar. As autoridades podem até insistir no discurso tranquilizador, mas o roteiro tem sido mesmo aquele descrito nas previsões do mercado.

O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2015 | 02h55

Economistas citados em reportagem do Estado já apostam em taxas de inflação na altura de 10% este ano e acima do limite em 2016. A pesquisa Focus, conduzida semanalmente pelo Banco Central (BC), vai nessa direção. A mediana das projeções subiu novamente e agora aponta uma alta de preços de 9,53% em 2015. Para o próximo ano a estimativa chegou a 5,94%, depois de nove semanas em alta.

A expectativa em relação ao ritmo de atividade continua muito ruim. Em 2015, o Produto Interno Bruto (PIB) deve encolher 2,85%. Espera-se alguma reação no próximo ano, mas ainda com resultado negativo. A projeção passou de -0,60% para -0,20%, mas com inflação maior.

A recessão e o dólar em alta devem produzir, combinados, pelo menos um resultado positivo. O superávit comercial passará, segundo a Focus, de US$ 11 bilhões em 2015 para US$ 12 bilhões em 2016. Com desemprego elevado, juros altos e inflação ainda acelerada, os consumidores com certeza continuarão retraídos e isso afetará a demanda de importações.

Além disso, dificilmente aumentará a compra de máquinas importadas, porque a maior parte dos empresários continuará mais empenhada em sobreviver no dia a dia do que em reforçar a capacidade produtiva de suas companhias. Só mudarão se tiverem alguma razão para acreditar numa virada econômica, e isso dependerá essencialmente do governo, que continua incapaz de liderar um movimento de recuperação.

Depois da nova rendição às pressões do PMDB e às ordens do ex-presidente Lula, a presidente Dilma Rousseff parece ainda menos capaz de assumir essa liderança. Sem isso, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, dificilmente conseguirá manobrar para conduzir o ajuste no rumo necessário.

Enquanto a presidente encolhe em termos políticos e administrativos, crescem as dúvidas sobre o programa oficial de ajuste e as demandas por uma nova estratégia. Há demandas de dois tipos. Petistas e grupos ditos de esquerda propõem afrouxar as políticas e, essencialmente, repetir os erros dos últimos anos. Esses erros conduziram à crise atual e retomá-los será catastrófico. Do lado oposto, economistas de competência reconhecida põem em dúvida a eficácia da estratégia oficial e sugerem mudanças na composição do ajuste.

Segundo esses economistas, o amplo desarranjo fiscal neutraliza a política de combate à inflação baseada no aperto monetário. Em contrapartida, esse aperto, realizado por meio da elevação de juros, aumenta a dívida pública e dificulta o conserto das contas do governo. A solução proposta é manter o esforço de arrumação das finanças oficiais e mudar o combate à inflação. O BC abandonaria por algum tempo o regime de metas e ressuscitaria a banda cambial, fixando limites para a oscilação do dólar. O dólar poderia subir, mas de forma controlada, e o câmbio funcionaria como âncora da inflação.

Essa foi a experiência da primeira fase do Plano Real. Vários especialistas têm discutido essa possibilidade e a ideia foi exposta com clareza pela economista Monica de Bolle, numa entrevista publicada no Estado de domingo.

Mas o arranjo só poderá funcionar se for temporário e se o governo estiver preparado para seguir o roteiro certo. Neste momento, o Executivo se mostra pouco preparado para executar mesmo o mais simples programa com um mínimo de segurança. Discutir refinamentos estratégicos, nesta altura, é uma exibição de otimismo.

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