Coma! Aqui é Okinawa

Coma! Aqui é Okinawa

A ilha fica no Japão, mas sua cozinha é muito diferente. E o que come o povo dessa província que associa comida a saúde? Saiba com Jorge J. Okubaro, filho de okinawanos. Depois vá ao Deigo, pegue o meshi, coma waa e tome awamori (tradução? Vai ter de ler)

Jorge J. Okubaro/OKINAWA,

18 Janeiro 2012 | 17h41

Uma das expressões comuns nos folhetos distribuídos aos estrangeiros para explicar um pouco dos hábitos e costumes da população de Okinawa é "Kamê! Kamê!". Quer dizer "Coma! Coma!". Filhos de okinawanos em Okinawa e em várias partes do mundo para onde esse povo emigrou certamente ouviram com frequência essa expressão na infância. É o meu caso. Sorri quando, em Okinawa, há algum tempo, li essas palavras num folheto.

Lembrei-me de minha mãe, que veio de Okinawa para o Brasil na primeira metade do século passado, como meu pai. Quando alguém à mesa não limpava o prato, invariavelmente ela perguntava, como a repreender: "Poru quê non come? Non tá bom?", dizia no português arrastado que falou até o fim da vida, aos 90 anos de idade.

A pergunta "não está bom?" não se referia à comida, pois, na tradição das famílias okinawanas, a comida sempre está boa. Referia-se, isto sim, a quem a pergunta era dirigida. Comida é considerada elemento essencial não só do sustento das pessoas, mas sobretudo de sua saúde. Daí o inverso dessa interpretação e a razão da pergunta de minha mãe: não comer tudo era o primeiro sinal de más condições de saúde.

Há uma expressão típica okinawana que resume essa relação: "nuchi gusui". Pode ser traduzida, de forma livre, como "alimento é remédio", ou "comida cura". Crianças que, como eu, detestavam certos alimentos, consideravam o uso dessa expressão uma artimanha de adultos para ludibriar pobres seres indefesos, ainda incapazes de argumentar, e forçá-los a ingerir o que não queriam. "Eu não estou doente para comer essas coisas horrorosas", pensava, como certamente pensam muitas crianças cujas mães gostam de jiló. Acaso ou não, os okinawanos são os mais longevos do Japão.

E o que come esse povo que trata a comida com tanto respeito e reverência? Uma das marcas da cozinha okinawana, que a diferencia das ilhas principais do país, é o consumo de carne de porco, essencial no sobá levado pelos imigrantes ao Mato Grosso do Sul. Mais rural e rústica, a cozinha de Okinawa baseia-se nos legumes frescos - entre eles o enrugado e amargo goyá. Come-se também cabrito, num prato bem característico, a sopa de cabrito (hijaa nu shiru), feita com a carne e a pele - tostada no fogo, fica com um sabor de coisa chamuscada.

Em Naha, a capital, e em todas as demais cidades importantes de Okinawa, pode-se comer os pratos principais da cozinha japonesa, o que inclui sushi, sashimi e pratos quentes. Em São Paulo, o mais famoso restaurante okinawano, o Deigo provavelmente serve mais comidas japonesas conhecidas do público do que as okinawanas.

Mas, como suas tradições, sua cultura, seus hábitos e seu idioma, a cozinha dessa província é muito diferente da japonesa. Há fortes razões para explicar isso. Olhando para a história do Oriente, faz bem pouco tempo que Okinawa se tornou politicamente parte da nação japonesa. Desde os tempos em que havia reinos independentes no arquipélago de Ryu Kyu (no extremo sul do que hoje é o arquipélago japonês), Okinawa teve existência autônoma. No fim da 2ª Guerra Mundial, ali se travou a mais sangrenta batalha do Pacífico e, desde a rendição japonesa, em 1945 (até 1972), a província ficou sob controle do comando militar americano. O idioma local foi reprimido durante boa parte da primeira metade do século 20, mas hoje, com o risco de desaparecimento, seu uso está sendo estimulado.

No entanto, talvez em razão de suas raízes fortemente domésticas, sua cozinha foi preservada. Também a distância das ilhas principais do Japão (Naha fica mais perto de Taiwan e de Seul do que de Tóquio) pode ter contribuído para a preservação de outros traços da identidade okinawana. Usagamisorê! ("Sirva-se!").

JORGE J. OKUBARO É FILHO DE IMIGRANTES OKINAWANOS E AUTOR DE O SÚDITO (BANZAI, MASSATERU!), DA EDITORA TERCEIRO NOME

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