Combate à pobreza em épocas de crise

A atual crise econômica levou quase 90 milhões de pessoas à pobreza em todo o mundo, incluindo uns 8 milhões na América Latina e no Caribe. Políticas macroeconômicas mais sólidas e setores financeiros mais saudáveis na região, hoje mais do que durante episódios de crises anteriores, permitirão enfrentá-la melhor. Mas os efeitos socioeconômicos da crise ainda são severos, especialmente no aumento do desemprego e na ampliação dos hiatos de crédito.

Vinod Thomas e Marvin Taylor-Dormond, O Estadao de S.Paulo

31 Dezembro 2009 | 00h00

Lidar com esses impactos econômicos e humanos requer tanto fluxos financeiros revigorados como uso mais eficaz de fundos. No passado, volumes semelhantes da despesa parecem ter produzido resultados de desenvolvimento imensamente diferentes. O Grupo de Avaliação Independente do Grupo Banco Mundial, com base em análises de países, incluindo vários dessa região, destaca fatores relacionados com a quantidade e a qualidade da resposta à crise.

Primeiro, os fluxos financeiros precisam ser adequados e oportunos, especialmente em face de hiatos financeiros crescentes. Durante a crise atual, os fluxos oficiais de fontes multilaterais têm atingido níveis recordes em resposta às necessidades dos países. Nesta situação, é essencial reconhecer que a recuperação sustentada depende não somente do volume da despesa, mas também de sua qualidade e da forma como é estruturada.

Atualmente, o Grupo Banco Mundial procura um aumento substancial do capital para ajudar seus clientes a enfrentarem o rigor do desaquecimento econômico, especialmente seus impactos sociais. No âmbito do Grupo Banco Mundial, os compromissos assumidos no ano de 2009 pelo Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (empréstimos a governos de renda média) triplicaram, elevando-se a US$ 33 bilhões, e os assumidos pela Associação Internacional de Desenvolvimento (empréstimos a governos de baixa renda) aumentaram 25%, para US$ 14 bilhões. Cerca de 30% desse aumento proveniente do Banco Mundial se destina à Argentina, ao Brasil, à Colômbia, ao México e ao Peru. A Corporação Financeira Internacional (IFC) - ramo do setor privado - investiu US$ 10,5 bilhões no ano passado e enfocou a sua resposta à crise no fortalecimento do setor financeiro e na facilitação do comércio. Alguns exemplos incluem o novo Fundo de Capitalização da IFC, o qual fez seus primeiros investimentos num banco sistêmico do Paraguai; plataformas de comércio da IFC, as quais ajudam bancos no Brasil e em outros países da América do Sul, no México, na América Central e no Caribe a manter seus mecanismos comerciais; e investimentos na infraestrutura e no apoio às médias, pequenas e microempresas.

Para manter a restauração econômica, porém, os fluxos de capital privado devem ser revigorados. Os fluxos financeiros privados destinados aos países em desenvolvimento caíram de US$ 1,2 bilhão em 2007 para US$ 360 milhões em 2009. Reverter essa tendência é fundamental, uma vez que os países em desenvolvimento mais pobres através do mundo enfrentam um hiato de financiamento de US$ 12 bilhões e talvez não estejam em condições nem mesmo de custear as despesas sociais mais essenciais.

Segundo, as implicações macroeconômicas da resposta à crise, especialmente aos déficits públicos crescentes, precisam ser bem gerenciadas. De acordo com estimativas, em 2009 os déficits fiscais atingiram quase sete pontos porcentuais do PIB a mais do que em 2007 nas nações do G-20 e cerca de cinco pontos porcentuais a mais nas economias emergentes do G-20. Nesse ínterim, o coeficiente da dívida pública-PIB nos países do G-20, segundo uma estimativa, pode ter aumentado cerca de 15 pontos porcentuais entre esses anos. No futuro, serão necessários um reajuste fiscal acentuado e um crescimento mais forte, a fim de amortizar a dívida.

Igualmente, para gerar crescimento econômico, a despesa precisa ser orientada para áreas de alta produtividade, tais como projetos de infraestrutura, que têm demonstrado produzir maiores retornos do que os proporcionados por subsídios não direcionados. Mas mesmo nesse caso, não é qualquer tipo de gasto na infraestrutura que geraria crescimento automático. Somente alguns países conseguiram, durante a resposta à crise, implantar os mecanismos realmente necessários para analisar, acompanhar e avaliar custos e benefícios dos projetos.

Terceiro, as considerações de pobreza e desemprego são de importância primordial. Nas últimas crises financeiras, as questões de pobreza não receberam atenção suficiente dos países nem de fontes de financiamento. Há indícios de que, desta vez, as redes de segurança social, tais como transferências condicionais de dinheiro, estão mais bem estabelecidas e protegidas, com apoio de fontes oficiais, como, por exemplo, o Grupo Banco Mundial. Em vista de prejuízos de longo prazo causados pela crise às pessoas de baixa renda, é crítico que a proteção de grupos vulneráveis seja abordada cedo.

Finalmente, as pressões crescentes da crise financeira não deveriam diluir a atenção ao meio ambiente e ao clima. O estímulo financeiro apresenta uma oportunidade ímpar de mudar para investimentos sustentáveis - como, nessa região, o México está fazendo até certo ponto.

Toda crise é única, embora as lições de respostas a crises anteriores sejam informativas. A celeridade e a amplidão da resposta precisam contar com a contrapartida de uma atenção cuidadosa à qualidade das intervenções. Juntamente com uma melhor coordenação com todas as organizações, o Grupo Banco Mundial, utilizando essas lições, pode ajudar os países do Hemisfério a mitigar os impactos da crise.

Vinod Thomas e Marvin Taylor-Dormond são, respectivamente, diretor-geral e diretor do Grupo de Avaliação Independente do Grupo Banco Mundial

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.