Começa primeira eleição presidencial livre na história do Egito

Os egípcios fizeram fila pacientemente para votar nesta quarta-feira, ansiosos por escolher seu novo líder pela primeira vez numa história que remonta aos faraós.

EDMUND BLAIR, REUTERS

23 Maio 2012 | 09h09

Não há pesquisas confiáveis, mas parece haver uma acirrada disputa entre políticos islâmicos e rivais laicos que participaram do deposto regime de Hosni Mubarak. A incerteza sobre o resultado, ao invés de afligir os egípcios, é um alento após eleições meramente protocolares durante os 30 anos do regime Mubarak.

"Precisamos provar que as vezes em que ficávamos em casa e alguém escolhia por nós acabaram", disse o treinador de natação Islam Mohamed, 27 anos, numa seção eleitoral do Cairo.

O pleito marca o apogeu de uma turbulenta transição política desde a revolta que derrubou Mubarak, 15 meses atrás. A junta militar egípcia promete entregar o poder em 1o de julho, mas as Forças Armadas preservarão uma grande influência política depois disso.

Os revolucionários que acamparam na praça Tahrir no ano passado para depor Mubarak podem relutar em confiar o futuro do Egito a políticos islâmicos ou a remanescentes do antigo regime, mas esses candidatos podem atrair muitas das 50 milhões de pessoas aptas a votar, e que estão desejosas por uma reforma com matizes islâmicos, ou por uma mão firme e experiente que restaure a estabilidade e a segurança.

O novo presidente terá pela frente a tarefa de promover a retomada do crescimento econômico. Mas os poderes atribuídos ao presidente, ao governo, ao Parlamento, ao Judiciário e às Forças Armadas ainda não estão definidos, pois persiste um impasse sobre quem deve redigir a nova Constituição.

O número de indecisos ainda é grande. "Vou votar hoje, não importa o que aconteça, é uma coisa histórica a fazer, embora eu realmente não saiba em quem irei votar", disse Mahmoud Morsy, de 23 anos. Ele então disse que provavelmente marcará o nome de Mohamed Mursi, candidato da Irmandade Muçulmana, cuja máquina eleitoral já assegurou ao grupo a maior bancada parlamentar, na eleição concluída em janeiro.

A votação começou sem relatos de violência. O clima no mais populoso país árabe, com 82 milhões de habitantes, é festivo e tranquilo, com muitos eleitores brincando e comentando o caráter histórico do pleito.

"Levanta, Egito", foi a manchete em letras garrafais do jornal popular Al Masry Al Youm. O estatal Al Gomhuria disse que "o presidente está na urna, a chave está com o povo".

A campanha eleitoral oficial durou três semanas, com muitos comícios, propaganda nas ruas e até um debate pela TV. Outra novidade foi ver os candidatos pegando fila -- nada mais diferente do que na época de Mubarak, quando a TV mostrava o presidente votando em meio a submissos funcionários, sem nenhum eleitor comum à vista.

Depois das manipulações do antigo regime, o eleitorado está atento a abusos. Em uma seção eleitoral do Cairo, um juiz interveio depois de eleitores se queixarem de que um mesário estaria promovendo um candidato islâmico. Em geral, porém, houve poucos incidentes.

Dificilmente algum candidato obterá mais de metade dos votos válidos, o que exigirá a realização de um segundo turno em junho. A votação do primeiro turno continua na quinta-feira, e o resultado já deve ser conhecido no sábado, embora os números finais só sejam esperados para terça-feira.

(Reportagem adicional de Yasmine Saleh, Tamim Elyan, Dina Zayed e Shaimaa Fayed no Cairo; Tom Perry no Delta do Nilo e Marwa Awad em Alexandria)

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