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Comendo como o Alcorão manda

Empresas alimentícias faturam na França com a venda de produtos feitos para muçulmanos, que já são 8,5% da população do país

Dias Lopes,

23 de setembro de 2010 | 07h47

 

Os muçulmanos exercem crescente influência na vida na França, pois já formam um contingente de 5,5 milhões de pessoas, cerca de 8,5% da população do país. Seduzidos pelo tamanho desse mercado, que movimenta entre 5,5 bilhões e 6 bilhões por ano, industriais e comerciantes estão oferecendo produtos, sobretudo alimentos, feitos segundo os princípios do islamismo, a religião dos consumidores.

É o que acontece, por exemplo, com a cadeia europeia de fast food Quick, rival da americana McDonald's. No início do mês, ela anunciou que 22 dos seus 358 endereços no território francês passaram e trabalhar exclusivamente com carne halal, ou seja, certificada pela regra muçulmana. Até então, eram apenas oito. Foi o sucesso das casas pioneiras que levou a Quick a quase triplicá-las. As vendas dobraram com a adoção da carne halal. Mas a novidade provocou controvérsia. Um prefeito do norte do país acusou a cadeia de comida rápida de criar "uma espécie de apartheid". A Quick se defendeu dizendo que as lojas estavam abertas a todas as pessoas, não só aos muçulmanos.

A carne halal não apresenta diferença das outras. Impossível descobrir, ao morder um sanduíche, se ele é recheado com a certificada ou a haram (proibida). O que difere é o modo de abate do animal. Para se tornar permitida, a carne necessita proceder de um bovino, ovino, caprino ou galiforme (frango, galinha ou galo) sacrificado conforme os preceitos do Alcorão, o livro sagrado dos muçulmanos. No momento do abate, o animal deve ser saudável e estar virado para a cidade de Meca, no sudoeste da Arábia Saudita. Quem o realiza tem de ser muçulmano e conhecer as regras islâmicas. O ritual acontece com faca afiada. Atinge-se a jugular o mais rápido possível, para abreviar o sofrimento e esgotar completamente o sangue, cujo consumo os muçulmanos abominam, pois acreditam abrigar a alma. Antes do abate, pronuncia-se a frase: "Em nome de Alá, o mais bondoso, o mais misericordioso." Já no caso das carnes haram - seja a de porco, cobra, cachorro, gato, tigre ou de todos os animais carnívoros - não existe possibilidade de purificá-las.

As 22 lojas francesas da Quick que só operam com halal também aboliram os ingredientes suínos, a começar pelo bacon, trocado por lâminas de frango defumado. Os países de formação cristã sempre tiveram dificuldades de entender as proibições ao consumo de porco feitas no Alcorão e no Levítico, terceiro livro do Antigo Testamento dos judeus. Talvez aí se encontre uma das razões da polêmica causada pela Quick. Em compensação, os muçulmanos da França se sentem gratificados. Assim como os judeus, eles julgam "imundo" ingerir carne suína (Alcorão, Surata 6:145).

Uma interpretação popular atribui a rejeição de ambos os povos ao fato de, no passado, o porco ser criado apenas em ambientes sujos e, sem receber cuidados sanitários, poder transmitir doenças. Mas o antropólogo americano Marvin Harris, no livro Vacas, Porcos, Guerras e Bruxas: Os Enigmas da Cultura (Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1978), oferece outra explicação. Criar porco seria incompatível com o nomadismo dos pastores muçulmanos e judeus que habitavam o deserto. Para sobreviver, o animal precisava de alimentação permanente e, consequentemente, de vida sedentária. Também era menos desinteressante por não dar leite, lã ou couro.

Como fornecedor de alimento, o ovino se tornou favorito dos muçulmanos. De acordo com o espanhol e especialista em história da alimentação L. Jacinto García, no livro Comer como Dios Manda (Ediciones Destino, Barcelona, 1999), sua carne é a mais representativa das celebrações sagradas. No Di al Hayah (Festa do Sacrifício), que comemora a entrada em Meca do profeta Maomé, fundador do islamismo, após a dura e exaustiva travessia do deserto, cordeiros invadem as ruas, praças e mercados das cidades muçulmanas. Famílias e vizinhos se encontram para reforçar laços de parentesco e amizade. Habitualmente, a comemoração acontece em torno de um guisado de cordeiro. "Assim Alá quer", ressalta García. Não por acaso, a Quick anunciou que, nas lojas halal, reforçará os sanduíches à base de carne ovina.

 

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