Comer como o Deus cristão manda

Ao contrário do Talmud e do Alcorão, livros sagrados dos judeus e muçulmanos, o Novo Testamento não submete os cristãos a proibições alimentares. Nada de classificar e separar os alimentos em puros ou impuros. O povo de Deus fica à vontade para comer peixes sem escamas ou barbatanas, porco de todos os jeitos ou carne e leite na mesma refeição, itens vetados pela religião hebraica, por exemplo. O sinal verde para liberação foi dado pelo quinto livro do Novo Testamento, intitulado Atos dos Apóstolos, ao relatar um êxtase de São Pedro. Sentindo fome, o príncipe dos apóstolos quis comer. Entretanto, sendo judeu, hesitou em se alimentar com a carne de animais que considerava impuros. A voz que lhe falava do céu, porém, sentenciou: "O que Deus purificou não chames tu de impuro."

jadiaslopes@terra.com.br, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2009 | 03h18

Veja a receita de ''Sopa de Camarão ao Leite''

No livro Comer como Dios manda (Ed. Destino, Barcelona, 1999), o médico, especialista em alimentação e ensaísta espanhol L. Jacinto García afirma ter sido essa passagem o principal motivo para os cristãos primitivos terem comportamentos opostos diante da comida. Enquanto alguns se entregaram à permissividade da gula, "outros se colocaram no vértice oposto e voluntariamente mortificaram os seus corpos com uma austeridade e um jejum extremos". Cultuando a renúncia ao prazer gustativo e a outras delícias da vida, convictos de que a solidão aperfeiçoa o espírito, muitos abandonaram suas famílias, aldeias ou cidades a partir do século 3 e foram morar em desertos ou regiões inóspitas.

Alguns se reuniram em comunidades, criando os primeiros monastérios; outros, os chamados anacoretas ou eremitas, optaram pelo isolamento, enfurnando-se em cavernas ou se encarapitando no alto das árvores. Pedro de Morrone, um dos eremitas, radicado no remoto sudeste da Itália, foi escolhido papa contra sua vontade no século 13. Os eleitores queriam colocar no trono de São Pedro alguém que estivesse fora das lutas internas da Igreja.

Os anacoretas comiam pouco, quase nada. Uma sopa rala de leite ou água, de mar ou rio, virava banquete, pois acreditavam que o alimento excitava a sensualidade, considerada demoníaca. A renúncia mortificante, impulsionada pela busca da plenitude espiritual, influenciou o mundo cristão. Na preparação para a Páscoa, todos passaram a fazer jejum. Em 325, o Concílio de Nicéia estendeu o período de penitência para 40 dias, dando origem à quaresma. Iniciava na Quarta-Feira de Cinzas e terminava no domingo de Páscoa. "Com o passar do tempo, a Igreja foi endurecendo as suas proibições alimentares", observa Jacinto García. "Assim, instaurou os dias de abstinência de carne, diferentes dos dias de jejum." O rigor penitencial não parou ali. Os dias de abstinência de carne chegaram a ocupar quase a metade do ano, pois incluíram todas as quartas-feiras, sextas-feiras e sábados.

Antes que as interdições começassem a abrandar, porém, surgiu a luz no final do túnel: a promulgação de bulas, cartas pontifícias de caráter solene, tratando de assuntos espirituais ou temporais, que concederam a determinados fiéis, entre outros privilégios, licença para comer. Conforme Jacinto García, a primeira bula expedida foi a da Cruzada, em 1064, no reinado do papa Alexandre II. Recebeu o nome porque se destinava a custear despesas das expedições militares organizadas nos países cristãos da Idade Média "para libertarem o túmulo de Cristo do poder dos infiéis". Mediante o pagamento de uma esmola (eufemismo eclesiástico para a entrega de dinheiro), o cristão recebia indulgências e privilégios, entre os quais o de poder escapar da abstinência de carne e do jejum. O problema é que o benefício só alcançava os ricos. Sem recursos para adquiri-lo, os pobres continuavam debaixo das interdições.

Ter uma bula virou sinal de distinção social e, ao mesmo tempo, um excelente negócio para quem a concedia. Era tão bom que misturou os interesses financeiros da Igreja com os do erário dos países cristãos, ocasionando excessos. Criou-se a figura do "comissionista de bulas", que percorria os países vendendo indulgências e privilégios. Segundo Jacinto García, a primeira coisa que fazia ao chegar em uma povoação "era ganhar a simpatia e colaboração do pároco, coisa certamente muito fácil e barata". A fonte do ensaísta espanhol, nesse caso, é La vida de Lazarillo de Tormes y de sus fortunas y adversidades, novela espanhola anônima, escrita na primeira pessoa e em estilo epistolar, cuja edição mais antiga data de 1554.

O "comissionista de bulas" tratava primeiro de conquistar o pároco da localidade visitada com presentes baratos. Oferecia-lhe produtos inexistentes na povoação, que iam de laranjas suculentas a pêssegos carnudos. Depois, saía negociando com os fiéis. Por haver contestado a venda das indulgências e ter negado a autoridade papal, etc., o frade agostiniano Martinho Lutero (1483-1546) rompeu com a Igreja Católica e fundou o protestantismo. Terminou excomungado pelo papa Leão X, através da bula Decet Romanum Pontificem. Além de conceder diferentes benesses, como a licença para comer, a comercializada carta pontifícia também condenava pessoas ao inferno.

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