Comércio global reage, puxado pela China

Exportações sobem 7%, mas países ainda temem onda protecionista

Raquel Landim, O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2009 | 00h00

O comércio mundial reagiu à crise e voltou a crescer nos principais mercados. A retomada foi puxada pela China e ganhou fôlego no terceiro trimestre, depois que os países desenvolvidos começaram a sair da recessão. Mas ainda persistem riscos. O principal deles é o recrudescimento do protecionismo.

Depois de ceder quase 40% em fevereiro, seu pior patamar, o comércio internacional avançou 7% em agosto, revelam dados do instituto de pesquisa CBP Monitor, organizados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os porcentuais correspondem ao acumulado dos três meses anteriores, anualizados.

"O período mais crítico da atual crise financeira parece ter ficado no retrovisor", disse o gerente da área de pesquisa e acompanhamento econômico do BNDES, Gilberto Rodrigues Borça Junior. "O fundo do poço para o comércio mundial já passou", concorda o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges.

O motor da recuperação das trocas internacionais é, sem dúvida, a Ásia, particularmente a China. No trimestre encerrado em agosto, o comércio dos países asiáticos subia 9,4%. O robusto desempenho da economia chinesa favoreceu os demais países da região, absorvendo suas exportações. O Japão, por exemplo, registrou uma recuperação de seu comércio externo de 47% em agosto.

Mas o impacto da China não ficou restrito à Ásia. O canal de contaminação positivo foi o incremento da demanda chinesa por commodities em plena crise, por causa do pacote fiscal de US$ 586 bilhões que o governo local implementou, com foco na infraestrutura. "A China foi um fator determinante para o comércio. Os recursos gastos significaram mais demanda por minério de ferro, cobre e outros produtos", disse o economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Maurício Moreira Mesquita.

A América Latina, com destaque para o Brasil, foi uma das regiões mais beneficiadas. Graças ao apetite chinês, o comércio internacional dos países latino-americanos subiu 3,2% no trimestre terminado em agosto - a primeira alta do ano nessa base de comparação. Em março, as trocas da América Latina com o mundo caíam 37,5%.

De acordo com Borges, da LCA, o comércio global começou a dar sinais de reação em maio, mas só ganhou ímpeto a partir do terceiro trimestre, quando as economias dos Estados Unidos e dos principais países da Europa voltaram a crescer de forma sincronizada.

Apesar do clima de otimismo, as trocas entre os países ainda estão longe de voltar à normalidade. O patamar atual é 15,4% inferior ao de setembro de 2008, anterior à turbulência. O ritmo do comércio está mais fraco que a produção industrial global, que subiu 14,7% em agosto e está apenas 4,8% abaixo de setembro do ano passado.

Em 2009, o comércio global terá sua maior queda desde a Grande Depressão na década de 30. Alguns estudiosos acreditam que o recuo pode ter sido até mais significativo que naquela época. A Organização Mundial de Comércio (OMC) prevê retração de 10% do comércio mundial este ano, enquanto a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é mais pessimista e estima queda de 16%.

O comércio foi a principal vítima da crise e sofreu mais do que o Produto Interno Bruto (PIB) ou a produção industrial do planeta. Dados elaborados pelo BNDES mostram que, na década de 60, uma queda de 1% na renda global significava 1,94% menos de comércio. Hoje a relação é 1% a menos de renda, 3,7% menos de comércio.

A mudança é consequência direta da integração das cadeias de suprimentos das empresas em escala global, que tende a magnificar os efeitos da redução da demanda. Por exemplo: quando as importações dos EUA de carros alemães recuam, também caem as compras da Alemanha vindas da Eslováquia, onde são produzidas boa parte das peças.

"Existe uma tendência de recuperação do comércio, mas é incipiente", disse o secretário de Comércio Exterior, Welber Barral. Para Borça Junior, do BNDES, o processo só deve acelerar em 2010, quando o nível de atividades dos países ricos se recuperar de maneira mais consistente. Além de possuir um enorme peso na economia mundial, Estados Unidos e União Europeia são regiões mais abertas ao comércio do que os países em desenvolvimento.

A retomada do comércio global não está livre de riscos. O primeiro é a atividade voltar a enfraquecer, lançando a economia mundial em um novo "mergulho". O segundo é o aumento do protecionismo. A China, que tirou o comércio do buraco, pode se transformar em vilã. A política de manter o yuan desvalorizado em relação ao dólar prejudica a competitividade dos demais países e gera protestos.

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