Comissão eleitoral russa admite cobertura desigual da mídia

Para chefe da organização, tempo dedicado a cada candidato foi diferente, mas noticiário foi 'justo'

Da BBC Brasil, BBC

29 Fevereiro 2008 | 07h05

Com a campanha presidencial na Rússia entrando em seu último dia, o presidente da Comissão Eleitoral do país admitiu nesta sexta-feira, 29, que a cobertura da mídia foi desigual. Vladimir Churov disse à BBC que nem todos os candidatos tiveram o mesmo acesso à mídia, mas ainda assim disse acreditar que a cobertura foi justa.  Veja também: TV russa favorece amplamente candidato de Putin Popularidade de Putin marca eleição previsível Entenda o processo eleitoral na Rússia Os críticos dizem que os canais de TV russos dedicaram muito mais tempo à cobertura do candidato do presidente Vladimir Putin, o vice-premiê Dmitry Medvedev. Segundo as pesquisas de opinião, Medvedev pode vencer já no primeiro turno, no domingo, com uma proporção entre 60% e 80% dos votos. Churov caracterizou a cobertura da campanha como "justa, mas não igual". "É um problema não somente para nosso país, mas eu posso concordar que nem todos os candidatos tiveram um número igual de itens do noticiário", disse. Porém o chefe da Comissão Eleitoral argumentou que é legítimo que programas de notícias se concentrem nas atividades de Medvedev em seu atual cargo de vice-primeiro-ministro.  Churov disse ainda não lamentar o fato de a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) ter decidido não enviar uma missão de observadores à eleição, após acusar as autoridades russas de tentar controlar o seu trabalho. Para ele, o mundo formará sua própria opinião sobre a legitimidade da eleição de domingo. A Comissão Eleitoral da Rússia é formada por 15 membros, com cinco indicações cada pelo presidente e pelas duas casas do Parlamento. Churov foi indicado pela Duma, a câmara baixa do Parlamento, onde Putin tem hoje o apoio da maioria absoluta. Putin deve fazer um pronunciamento à nação nesta sexta-feira para se despedir do público como presidente após seus oito anos no cargo, segundo a mídia russa.  Desequilíbrio O único canal nacional privado da Rússia, NTV, dedicou na reta final da campanha presidencial 17 vezes mais tempo nos seus noticiários ao candidato do governo, o vice-primeiro-ministro Dmitri Medvedev, do que aos outros três somados. Em outros três canais importantes, o desequilíbrio foi menor, mas considerável. Isso sem contar o tempo dedicado ao presidente Vladimir Putin, que apontou Medvedev como seu sucessor, anunciando que será indicado primeiro-ministro por ele, depois da vitória de domingo, dada como certa.O Centro para Jornalistas em Situações Extremas monitorou as cinco principais emissoras de TV do país, de 2 de janeiro a 25 de fevereiro, entre 18 horas e meia-noite. O favorecimento mais avassalador ao candidato do governo ocorreu na NTV, um antigo canal independente que se tornou governista. No período, Medvedev ocupou 43,3% do tempo do noticiário político, enquanto os outros três candidatos somados obtiveram 2,5%. Putin ficou com os restantes 54,2%."Putin está matando o jornalismo na Rússia", disse ao Estado o diretor do Centro, Oleg Panfilov. Ele reconheceu, entretanto, que "nunca houve imprensa isenta" na Rússia. Segundo Panfilov, o governo usa a Receita Federal para pressionar empresas proprietárias dos meios de comunicação - que em geral atuam também em outros setores - e os potenciais anunciantes publicitários. Ao mesmo tempo, as grandes estatais compram o controle acionário e espaços publicitários nos meios. No Canal 1, emissora de maior audiência na Rússia, cujo dono, Boris Berezovski, foi expulso do país, e da qual o governo adquiriu controle acionário, Medvedev obteve 32,4% do tempo dos noticiários, enquanto os outros três candidatos somaram 7,6%. Putin recebeu os outros 60%, segundo a contagem do Centro, ligado à União Russa de Jornalistas. Na estatal TV Rússia, Medvedev ficou com 25,9%, os outros três somaram 14,5% e Putin, 59,6%. No canal TV Centre, Medvedev teve 35,3% do tempo, os outros candidatos, 6,5%, e o presidente, 58,2%.  O único canal que buscou equilíbrio foi a Ren-TV, pequena emissora privada da qual o antigo dono, o líder oposicionista Anatoli Chubais, também teve de abrir mão. Nela, o tempo foi repartido entre o candidato ultranacionalista Vladimir Jirinovski (21,6%); Medvedev (20,9%); o comunista Gennadi Ziuganov (20,5%), e o direitista Andrei Bogdanov (6,3%). Como nas outras emissoras, Putin foi o que teve mais exposição: 30,7%. De acordo com pesquisa do instituto independente Levada Center, a TV é o principal meio de informação de 81% dos russos. (Com Lourival Sant´Anna, enviado especial de O Estado de S. Paulo e BBC Brasil) 

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