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Pedro Doria
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Como a Guerra Fria e os hippies criaram a internet

No dia 7 de abril de 1969, Steve Crocker, um jovem estudante de computação da Universidade da Califórnia em Los Angeles, escreveu e distribuiu um memorando que intitulou "Host Software" - software hospedeiro. Datilografado à máquina, o texto ganhou o subtítulo: "request for comments" - peço que comentem. Nascia ali a internet. Neste ano, a concepção da rede faz 40 anos.  O texto de Crocker tinha onze páginas e detalhava como funcionaria o software de servidor que permitiria a dois computadores longe geograficamente um do outro se comunicarem. Os "Request for Comments", ou RFCs, viraram, ao longo dos anos seguintes, o método predileto de troca de informação dos engenheiros que inventaram a grande rede. São, até hoje, 5.023 RFCs, o último publicado em 2007.  As conversas tiveram início em agosto de 1968, quando estudantes e professores de quatro universidades - UCLA, Stanford, e UC Santa Bárbara, as três da Califórnia, e a Universidade de Utah - se reuniram para discutir como criar a rede. Quando o primeiro software de servidor estava mais ou menos pronto, Crocker soltou o RFC de número 1.  Demorou meses ainda até que, em outubro de 1969, outro estudante da UCLA, Charley Kline, fez a primeira transmissão para o que seria a ArpaNet. Kline tinha por missão digitar "login". Escreveu o L, seguido do O, mas aí a rede deu pau. Passou uma hora para o reboot e, só então, os computadores se conectaram.  ArpaNet, o nome inicial da internet, era a rede da Arpa, o braço de pesquisa do Departamento de Defesa dos EUA. A rede nasceu descentralizada por um motivo. Em plena Guerra Fria, o medo de um ataque nuclear soviético era real. A revolução cubana viera dez anos antes, a crise dos mísseis passara, mas a noção de que a qualquer momento Washington poderia ser bombardeada e dizimada era de todo presente.  Uma rede para trocar informação militar não podia ser centralizada por isso. Se Washington desaparecesse, ou Nova York, ou Los Angeles, não importa que cidade grande, os computadores daquele ponto seriam apagados, mas a rede, independente de um servidor central, permaneceria operante para organizar a resistência.  O primeiro link permanente da ArpaNet foi inaugurado em novembro de 1969 e ligava UCLA a Stanford, perto de San Francisco, no Vale do Silício.  Através de uma série de RFCs, os padrões da transmissão em rede foram especificados publicamente. Abertos. O resultado é que quando, em meados dos anos 1970, os britânicos decidiram criar sua rede, a JaNet, ela já nasceu compatível com a ArpaNet, embora as não estivessem ligadas entre si.  Até o início dos anos 80, algumas centenas de redes separadas foram criadas no mundo. Havia a BitNet, que ligava as universidades norte-americanas, a MilNet surgiu para substituir a ArpaNet em suas funções militares, e os países europeus conectaram-se uns aos outros.  Em 1987, um link por satélite foi estabelecido entre a BitNet e o Laboratório Nacional de Computação Científica, perto do campus da Praia Vermelha da UFRJ, no Rio. O LNCC foi ligado à Fapesp, em São Paulo. E, assim, o Brasil conectou-se à rede que ainda não era internet. Dois anos depois, Tim Berners Lee criou, no CERN da Suíça, a web que ainda não era gráfica.  Se a Guerra Fria fez com que a internet nascesse descentralizada, é importante marcar que gente como Steve Crocker e Charley Kline tinham pouco mais do que vinte anos e moravam na Califórnia. Entre abril e outubro de 1969, foi verão nos EUA - San Francisco já vinha sendo invadida por uma gente de cabelos compridos e vestidos floridos, desde o ano anterior, do Verão do Amor. 1969 seria o ápice daquela geração, marcado pelo festival de Woodstock.  A rede que se transformaria na internet foi cria de jovens envolvidos na contracultura, e não é à toa que a rede foi construída assim aberta, como uma grande cooperativa em que todos trabalhavam em conjunto. É o método científico e o espírito hippie integrados. Daí nasceu a cultura hacker.  Este, portanto, é o ano em que celebramos o nascimento da internet. Sua arquitetura aberta se impôs e está criando uma brutal ruptura nos negócios. O copyright que o diga. O colunista passa um ano em Palo Alto, na Califórnia

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