Como as moscas afogam suas mágoas

Esquecer frustrações amorosas por meio da ingestão de bebidas alcoólicas é um comportamento comum entre humanos. A perda de um prazer é compensada por outro.

Fernando Reinach,

19 Abril 2012 | 03h09

Há muitos anos se suspeita de que esse mecanismo de substituição seja controlado por sistemas complexos no cérebro. Muitos cientistas creem que o alcoolismo e a dependência de drogas são causados por alterações nesse mecanismo capaz de substituir prazeres negados por novas fontes de felicidade (mesmo que temporárias e destrutivas no longo prazo).

Agora, um grupo descobriu que um neuropeptídeo (uma espécie de hormônio no cérebro) é o responsável por esse mecanismo de compensação. É por meio dele que moscas privadas de atividade sexual passam a preferir alimentos contendo álcool. O estudo foi feito usando a Drosophila melanogaster, aquela mosca pequena que aparece sempre que deixamos uma banana madura em cima da pia.

As moscas foram divididas em dois grupos. Em um, moscas macho eram colocadas por algumas horas, todos os dias, com um número grande de fêmeas virgens. Como esperado, após um namoro que envolve uma dança e carinhos no abdome, os machos se acasalavam com as fêmeas. Isso foi repetido por quatro dias.

No final desse período, esses machos saciados foram colocados em um recipiente com dois tipos de comida: mingau tradicional e mingau com 15% de etanol. Com câmeras, os cientistas avaliaram se os machos preferiam a comida com ou sem etanol.

O outro grupo foi submetido ao mesmo tratamento, com uma diferença: as fêmeas já tinham sido fecundadas (nessa espécie, uma fêmea que já copulou rejeita o macho). Assim, os machos do segundo grupo foram rejeitados várias vezes por dia, durante quatro dias, por um número grande de fêmeas. Ao final do período, esses machos frustrados também puderam escolher entre o mingau comum e o com 15% de etanol. O resultado foi claro.

Os machos rejeitados preferiram a comida com etanol, enquanto os saciados sexualmente dispensaram o álcool.

No passo seguinte, os cientistas mediram a quantidade do neuropeptídeo F (NPF) no cérebro desses dois grupos. O resultado foi novamente claro: os machos frustrados possuíam níveis mais baixos do hormônio no cérebro; os saciados, um nível mais alto. O interessante é que o nível baixo de hormônio nos machos frustrados pode ser facilmente revertido se lhes forem oferecidas algumas fêmeas virgens. Após o sexo, esses machos têm o nível de hormônio aumentado e seu apetite por álcool diminui.

Esses resultados indicam que há uma correlação entre a atividade sexual, o nível de hormônio e a vontade de se embriagar. Mas isso é uma simples correlação ou uma relação causal?

Daí a vantagem de fazer esses estudos com essas moscas. Como a genética dessas moscas é facilmente manipulável, os cientistas alteraram os genes para diminuir o nível de hormônio sem submeter os machos à falta de sexo. Foi observado que moscas com pouco hormônio passaram a gostar de álcool, independentemente da atividade sexual. O inverso também foi observado.

Com base nessas observações, foi demonstrado que o sistema de produção do NPF media a substituição de um prazer negado por uma outra recompensa. É a primeira vez que se mapeia em detalhe o mecanismo molecular responsável por esse comportamento.

O interessante é que em humanos há um neuropeptídeo equivalente e muitas pesquisas em mamíferos já demonstraram que ele pode estar envolvido em fenômenos semelhantes. Se for provado que os humanos têm um sistema parecido com o das moscas, isso possibilitaria drogas para alterar seu funcionamento e talvez tratar pacientes com alcoolismo e diversas outras formas de dependência.

Quem imaginaria que as moscas também afogam suas mágoas com álcool e provavelmente compartilham conosco o mesmo mecanismo hormonal capaz de compensar uma frustração com outra forma de prazer?

 

* FERNANDO REINACH É BIÓLOGO / MAIS INFORMAÇÕES: SEXUAL DEPRIVATION INCREASES ETHANOL INTAKE IN DROSOPHILA. SCIENCE,  VOL. 335,  PÁG. 1.350

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