Como como o camu-camu?

Mari-mari, camu-camu, biribá, uxi... Não parecem nomes para se dizer à mesa, como pêssego e maçã. Mas são. Trata-se de puro bugre, nomes de frutas selvagens das funduras amazônicas. Conheça essas nativas saborosas

Olívia Fraga / BELÉM DO PARÁ,

18 de maio de 2011 | 18h58

 

Tem.Taperabá? Ingá-chinela? Só na banca da Carmelita

Ela vem toda de preto, óculos de grau, meia-calça cor da pele e sandália de dedo. Carmelita dos Passos Rocha, 62 anos, empertigou-se para conversar com a reportagem do Paladar, braço esquerdo apoiado nos caixotes de frutas de sua banca no Ver-o-Peso, em Belém, como quem quer demonstrar poder e ciência sobre aquele reino colorido e perfumado.

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D. Carmelita é a única vendedora que vende frutas nativas no mercado o ano inteiro. Antigamente as pessoas iam ao Ver-o-Peso para conhecer maçã, pera, mamão. "Havia muitas Carmelitas. Hoje, o próprio belenense visita o mercado para conhecer as frutas do seu lugar", diz o professor José Edmar Urano de Carvalho, pesquisador da Embrapa-Amazônia Oriental.

Antes de ter a barraca na área externa do mercado de peixe, ela trabalhou em indústria de algodão e bateu castanha-do-pará numa fábrica pequena, perto do bairro dos Jurunas, onde mora até hoje. Pequenina e magrinha, machucou-se com o instrumental da profissão nas duas ocasiões. Foi com o dinheiro das duas indenizações que comprou a banca do Ver-o-Peso, 42 anos atrás, sonhando fazer dinheiro com a venda de bananas. "Todo mundo só queria comer banana e maçã. Ninguém pedia as frutas da terra porque não dava muito trabalho conseguir. Era ir para dentro do mato e ‘caçar’", conta d. Carmelita. Para ela, na época o Ver-o-Peso tinha muito mais charme.

Por quase 20 anos, sustentou os cinco filhos comercializando bananas e maçãs. Até que um paraense perguntou se ela trazia cupuaçu e tucumã. No dia seguinte, lá estava ela com as frutas. A partir daí, a maçã desapareceu rapidinho da banca; a banana, não. Mas ela não vende só da nanica. Tem pelo menos outros quatro tipos. Fora bacaba, açaí, ingá-chinela, bacuri-pari, cajuru, taperebá. A mercadoria chega da Ilha das Onças, do Papagaio, Barcarena, do brejo do Guajará; e as polpas são feitas pela irmã.

E essa porção de frutos escuros, semelhantes a pedras, pouco atraentes, tem saída? "Sim, tem quem queira. É patauá, buriti seco, para enfeitar, curar dor de dente, dor de cabeça, ou pra extrair essência para ficar perfumosa."

* A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DO FESTIVAL VER-O-PESO DA COZINHA PARAENSE

 

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