Como ficar doente

De estalo, que fique claro: não pode nem deve ser doença muito séria. Já que por aqui o outono nos ronda, as temperaturas sobem e descem e não sabem direito o que fazer, igualzinho ao governo de Gordon Brown.

BBC Brasil, BBC

10 de outubro de 2007 | 05h25

De estalo, que fique claro: não pode nem deve ser doença muito séria. Já que por aqui o outono nos ronda, as temperaturas sobem e descem e não sabem direito o que fazer, igualzinho ao governo de Gordon Brown.Digamos que seja uma gripe. Uma gripe um pouquinho mais séria do que as outras. Você acordou, sentiu o corpo dolorido, o nariz entupido (logo, logo ele vai correr), dorzinha na garganta, calafrios, a febre praticamente implorando um termômetro para quebrar-lhe a cara ou bater um recorde. Assim que você pôs os pés no chão, veio-lhe uma fraqueza acompanhada de náuseas. Você volta a se deitar. Tudo menos ter que ir até a cozinha preparar café com leite, tirar os biscoitinhos da lata. O resto da casa - mulheres: cônjuge e a de limpeza, que hoje é dia dela - não lhe dá a atenção que você lhe julga devida. A gripe, ou começo de resfriado, é um passeio amargo pela infância passada. Uma pergunta emerge, como o balão sem ninguém que o pronuncie numa história em quadrinhos:- Você não vai se levantar hoje, não?O que em nada melhora seu estado. Responde então com uns gemidos. Alguns sentidos, outros não. No código dos acamados, você está dizendo que não, não vai levantar, que está péssimo e a vida é um horror que não vale a pena ser vivido.Você se volta para o outro lado (as camas, tragicamente, tem dois lados, ao menos em seu estado natural) e se lamenta em grunhidos altos.Vale em inglês, já que são quase 30 anos de Londres. Salpica suas imprecações de "woe is me", oh, dear!" e tolices semelhantes dignas das piores telenovelas das sete horas da noite.Meras afetações na vã tentativa que lhe tragam um chazinho na cama. De jeito nenhum. A casa prossegue como sempre: saudável, esperando aspirador, roupa na máquina de lavar, lençol, toalhas e camisas a serem passadas. Quem sabe? Talvez até lenços.Uma vez inteiramente só em casa, sem mulher alguma - nem a sua nem a dos outros - você se levanta e se arrasta até o banheiro. Sempre gemendo, tossindo, assoando e rosnando no primeiro lenço que lhe caiu nas mãos. Abluções, escovar de dentes. Arrumar um pouquinho a fachada que lá por dentro está uma desgraça. Faz um nescafé bem forte. Toma paracetamol, que aspirina o médico proibiu (outras doenças, todas de maior gravidade. O perigo está no acúmulo).Tenta ver o noticiário na televisão. Nada faz sentido. Computador? Nem pensar. Pelo menos nisso, tudo está igualzinho aos outros dias. Nada no correio. Carteiros em férias. Desejar a todos ele uma gripe das bravas. Hoje era dia de chegar revista assinada. Você bota uma roupa de ficar em casa. Como se isso existisse. Toda roupa é para se ir à rua, ao trabalho, visitar amigos, chegar até a esquina e comprar refrigerante e comida para a gata. Não, não. São dez da manhã e você ainda tem o dia todo a enfrentar.Você fecha bem direitinho todas as janelas da casa. Sim, é tarde, mas o notório vento encanado, contra o qual nos previniram todas as mães, avós e tias do mundo, continua a espalhar pelos aposentos seu bafo maligno. Fiquemos na gripe, ao menos. Há que se evitar a todo custo a pneumonia.Bobagem ligar de novo a televisão. Ou o desk top. Não há nada que interesse a um gripado nessa hora do dia (estamos perto do meio-dia) em todos os 187 canais ou 7235 sites. A um bom livrinho, pois. Terminar o novo romance do Philip Roth, por exemplo. Seguramente eu devo estar mais que febril. Meus olhos lacrimejam Nilos, Tâmisas e Amazonas. Quem sabe ouvir uns disquinhos? Aquela excepcional antologia em 3 CDs só com composições do Wlson Baptista? Não dá para chegar à vitrola. Não daria mesmo que fosse sistema de som. Além do mais, a cabeça já começou a ratear: pois eu não ouvi tudo, quase 100 músicas, há mais de um mês? Olho para a gata. A gata olha para mim. Eu não sabia o que ela fazia com tempo dela em tarde de dia de semana. Ela não entende o que eu faço aqui também em dia de semana. Perplexos e desconfiados, nos olhando de soslaio, vamos deixando o tempo escorrer (ah, meu nariz! Preciso de outro lenço. Um lençol!) até quase a hora do lanche.Depressões beirando o suicídio nos cantos escuros do apartamento. Que são muitos. Ir de um quarto para outro, bem devagar, arrastando os pés e falando sozinho (não muito alto) é recomendável. Pensamentos deprimentes no lugar do xarope Fontoura.Uma chegada na janela para ver o mundo normal lá fora. Chove, Tudo me leva à cama. Menos o sono. Como não dá para dormir, deito-me no sofá da sala e fico besteando de olhos fechados. Cama de tarde, em dia de semana, aborrece não só gatos como gente também.Brinco com minha cabeça. Faço o que faço nas viagens mais longas de avião: vou "produzindo" álbuns de música popular, aqueles que muita gente boa gosta de chamar de "conceituais".Um álbum de 12 faixas só com a chuva como tema. Mole. Tito Madi ganhando disparado. Promessa, de Custódio Mesquita e Evaldo Ruy ("pedi pra chover..."), abre o lado B (em gripes, trabalho com vinil). Depois vou de nome de mulher. Brasileiras e americanas. De Nancy (com Orlando Silva) a Nancy (com Sinatra). Presentes Stella by starlight, Aurora e Cadê Mimi.Meio sem notar, puxo um ronco. Ou caio no sono. "Have a kip", já que estou em terra de Inglaterra. Sim, é verdade, chove lá fora. Desafio gramáticas (por que não?) e chovo eu também. Doente é um tipinho chato, metido a besta. Não. É besta mesmo. Merecem ficar sozinhos passando mal. Para aprender. O que, não sei, ninguém sabe. Isso tudo passará. Do jeito que estou me sentindo, quando digo "tudo" é "tudo" mesmo" que eu quero dizer.Snif, Atchim. Snif. 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